Brasil e EUA enfatizam lado positivo da relação

Apesar do discurso cordial, Washington e Brasília ainda discordam em questões importantes, como o Oriente Médio e a reforma do Conselho de Segurança da ONU

SIMON ROMERO & JACKIE CALMES - THE NEW YORK TIMES

13 de abril de 2012 | 03h07

A primeira visita oficial de Dilma Rousseff a Washington foi cordial. Na segunda-feira, ela almoçou com o presidente Barack Obama na Casa Branca. Em seguida, o governo americano anunciou a abertura de mais dois consulados no Brasil, na tentativa de atrair mais turistas brasileiros dispostos a gastar rios de dinheiro no país. Brasil e EUA concluíram ainda um acordo para impulsionar a venda de cachaça e de uísque do Tennessee.

No entanto, o gesto de amizade mascarou a sensação de que os EUA, cuja influência outrora dominante na América Latina está em declínio, e o Brasil, a potência em ascensão no continente, continuam discordando numa série de questões importantes, da diplomacia no Oriente Médio ao comércio com Cuba e à ambição do Brasil de obter uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

"O Brasil acha que chegou perto ou bem perto de alcançar essa meta", disse Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue. "Os EUA consideram o Brasil um país enorme, o mais importante da América Latina, mas nada que se assemelhe a uma potência global."

A discrepância ficou patente em vários artigos publicados na imprensa brasileira a respeito da visita, nos quais os jornalistas lamentavam o fato de a presidente não ter sido recebida com a pompa de um jantar de Estado na Casa Branca, reconhecimento dado pelo governo Obama aos líderes da Coreia do Sul, Índia e Grã-Bretanha.

"A realidade bilateral está longe de ser desonrosa. Apesar das disputa, contudo, nota-se uma considerável falta de respeito mútuo", disse Caio Blinder, colunista da revista Veja, em artigo que fala do desdém com que foi tratada a visita de Dilma.

No entanto, ambos os governos enfatizaram os aspectos positivos da visita da presidente brasileira, um ano depois da viagem de Obama ao Brasil. O nível do diálogo diplomático, por meio do qual foram trocadas sigilosas informações militares, de Defesa e sobre comércio em geral, é muito mais elevado do que com algumas outras partes da América Latina, como Venezuela e Equador, onde as relações permanecem em um nível secundário.

Os EUA não têm um acordo comercial com o Brasil, embora tenham acordos com 11 outros países da América Latina. No entanto, o intercâmbio com o Brasil, que recentemente tirou da Grã-Bretanha o lugar de sexta maior economia do mundo, é florescente.

Em certo momento deste ano, os EUA superaram a China como principal mercado de exportação do Brasil em razão do aumento da compra de petróleo e de manufaturados brasileiros. No fim do primeiro trimestre de 2012, a China recuperou o primeiro lugar, mas as relações com o país asiático não são tão tranquilas em virtude das tensões a respeito dos produtos de importação de origem chinesa, extremamente baratos, e pelo fato de investidores chineses estarem adquirindo grandes extensões de terras brasileiras.

Ao mesmo tempo, os EUA registraram, em 2011, um superávit comercial acima de US$ 8 bilhões com o Brasil, decorrente do aumento das exportações americanas para o maior país latino-americano. Considerando a alta dos preços dos terrenos e da mão de obra, o Brasil, forte produtor de biocombustíveis, chegou a importar, no ano passado, um recorde de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA.

Contudo, esse intercâmbio disfarça as tensões. A valorização do real favorece a compra de imóveis por investidores brasileiros em Miami e em Nova York. Ao mesmo tempo, a força do real limita a competitividade dos exportadores brasileiros, tornando seus produtos mais caros nos mercados externos.

Obama e Dilma tiveram uma reunião privada de duas horas na Casa Branca. Mais tarde, no Salão Oval, conversaram rapidamente com os repórteres. Obama falou em termos efusivos do "extraordinário progresso do Brasil no governo da presidente Rousseff". Dilma reiterou os apelos do presidente americano por uma cooperação econômica entre os dois países.

Dilma referiu-se também à produção de petróleo e gás como "uma enorme oportunidade para uma maior cooperação", enquanto os EUA forneceriam equipamentos e know-how para o desenvolvimento de fontes de energia e a compra de parte do produto.

Ela elogiou as recentes reduções das tarifas americanas sobre o etanol brasileiro.

Entretanto, os olhos dos dois líderes raramente se encontraram - a presidente quase nunca olhou para Obama enquanto ele falava. Ele olhou atentamente para ela durante suas observações, às vezes acenando afirmativamente com a cabeça. No entanto, pareceu se incomodar quando ela expressou a sua preocupação com a possibilidade de "a política de expansão monetária" dos EUA prejudicar o crescimento das economias emergentes, como a do Brasil. A política monetária é de responsabilidade do Federal Reserve, o Banco Central americano.

A Casa Branca e o Congresso tratam da política fiscal.

Não foi revelado nenhum progresso em relação à política brasileira no Oriente Médio, que aparentemente sofreu alguns ajustes no governo Rousseff com relação à de seu predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que, em 2010, tentou lançar um ambicioso acordo de intercâmbio de urânio com o Irã.

Divergências. Embora o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, tenha evitado o Brasil em sua recente visita à América Latina, e o Brasil tenha votado nas Nações Unidas censurando o presidente Bashar Assad, da Síria, em Brasília persistem certos escrúpulos quanto a uma intervenção nos conflitos do Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, Washington tem se mostrado relutante em apoiar explicitamente a reivindicação do Brasil por um posto permanente no Conselho de Segurança, embora os EUA tenham apoiado o mesmo pedido apresentado pela Índia, há dois anos.

O Brasil também é favorável ao pedido da Índia e defende que o Conselho de Segurança deva ser ampliado e inclua novos membros. No entanto, Susan Rice, embaixadora dos EUA na ONU, criticou o Brasil - e também a Índia e a África do Sul - durante sua passagem temporária pela presidência do Conselho, quando esses países bloquearam as tentativas de pressionar o governo de Assad.

Outros problemas influem nas relações entre os dois países, como uma nova lei da Flórida que afeta as empresas que mantêm negócios com Cuba, impedindo os governos locais de contratá-las. A lei poderá complicar a situação da Odebrecht, uma das maiores construtoras brasileiras, que está reformando o porto de Miami e, ao mesmo tempo, constrói o Porto de Mariel, em Cuba.

Na terça-feira, Dilma se concentrou na educação superior, uma das áreas de cooperação mais ativas entre Brasil e EUA. Ela esteve em Harvard e no MIT, onde falou sobre o programa Ciência sem Fronteiras, que pretende mandar cerca de 100 mil brasileiros para estudar em universidades estrangeiras. Cerca de 50 mil deverão estudar nos EUA.

Segundo Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, o "Ciência sem Fronteiras contribuirá muito mais para a promoção das relações entre os dois países do que qualquer outro acordo diplomático que está em discussão". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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