Brasil e EUA liderarão ação de apoio a Venezuela

Brasil e Estados Unidos comandarão em conjunto o grupo de quatro países membros e dois observadores que ajudarão na busca de uma saída política para a crise venezuelana. O grupo Amigos para a Venezuela será integrado por Brasil, EUA, Chile e México, além de Espanha e Portugal, que serão observadores, conforme decisão tomada ontem durante encontro em Quito do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria, e seis presidentes: Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, que propôs a reunião; Lucio Gutiérrez, do Equador; Ricardo Lagos, do Chile; Álvaro Uribe, da Colômbia; Alejandro Toledo, do Peru; e Gonzalo Sánchez de Lozada, da Bolívia. A iniciativa diplomática do Brasil foi o centro das atenções ontem, à margem da posse de Gutiérrez. A diplomacia brasileira considerou uma vitória a criação do grupo. A idéia chegou a ser vista com desconfiança pelos EUA (ler ao lado), e o Brasil também teve de ceder. Em vez de "Grupo de Amigos da Venezuela", nome planejado anteriormente, será chamado apenas de Amigos para a Venezuela. Uma sutileza diplomática que pretende tirar da iniciativa qualquer conotação de um possível apoio ao presidente Hugo Chávez, remetendo, em vez disso, a uma ligação mais ampla com o país. Brasil e EUA comandarão a formulação das políticas a serem levadas ao secretário-geral da OEA, que está mediando a negociação entre as partes em conflito na Venezuela. Gaviria continuará no comando das negociações. Essa era uma das preocupações do governo americano. A maior preocupação brasileira é impedir que haja intervenção no país vizinho. Uma espécie de assessoriaO ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, disse, ao lado de Gaviria, que os países amigos vão prestar uma espécie de assessoria ao secretário da OEA. Acrescentou que Gaviria utilizará critérios de pressão de que um e outro país dispõem para, se for preciso, pedir algum tipo de interferência. O Brasil, por exemplo, tem influência sobre Chávez; os EUA, sobre a oposição. De acordo com Amorim, há quatro temas-chave a ser respeitados na mediação da crise: processo democrático, constitucional, pacífico e eleitoral. Gaviria disse que uma saída eleitoral pode ser possível: "Governo e oposição buscam entendimentos para mudanças constitucionais, que poderiam resultar numa reforma da Constituição." Com isso, Chávez poderia antecipar as eleições, como quer a oposição. A participação de apenas quatro países no grupo, além dos dois observadores da Europa, resultou de uma negociação entre diplomatas brasileiros e americanos. "É um grupo pequeno, com maiores chances de diálogo", disse Amorim, que a todo instante procurava lembrar que a iniciativa da reunião foi de Lula. Gaviria disse que uma solução para a Venezuela é necessária o mais rapidamente possível: "Há temores de que os problemas se expandam." Na reunião, ele disse que a situação na Venezuela está muito radicalizad e dificilmente haverá uma solução em breve para a greve geral, que já dura um mês e meio. A maior preocupação dos EUA era com o possível esvaziamento da OEA. Mas isso não acontecerá, segundo Gaviria. Todo o comando será dele. A princípio, os EUA não queriam a participação de nenhum país de fora do continente americano. Mas ontem, depois de uma reunião com Amorim, os americanos davam sinais de que estavam recuando. O enviado especial da Casa Branca para a América Latina, Otto Reich, que esteve em Quito, informou a alguns jornalistas brasileiros, antes da reunião, que os EUA já não se oporiam à participação de países de fora do hemisfério. "A idéia do Brasil foi muito boa, mas é sempre importante dar suporte à OEA. Os EUA querem participar e não fazem restrição a outros países, mesmo de outros continentes", afirmou. O governo de George W. Bush enviou a Quito quatro funcionários graduados: Reich, Curtis Strublle, Clay Johnson (chefe da delegação) e John Maisto, este último do Conselho de Segurança Nacional. Eles se reuniram com Amorim, a pedido do governo Bush, antes do encontro ampliado do presidente Lula com seus colegas. Antes da reunião, Lula disse que a intenção do Brasil ao lançar a idéia de formação do grupo é ajudar a Venezuela a sair da crise: "Acredito que a intenção dos países amigos da Venezuela é encontrar uma saída pacífica e tranqüila, que possa contentar sobretudo o povo da Venezuela." Lula disse que tem carinho especial pelo vizinho: "A Venezuela é um país importante para nós do ponto de vista econômico, cultural e político. Queremos contribuir para que ela encontre na paz o seu caminho e que o povo venezuelano consiga ser feliz." Chávez, que ontem almoçou com Lula, agradeceu a participação do Brasil na formulação de uma política que possa tirar seu país da crise. Assim que chegou a Quito, ele elogiou a iniciativa de Lula. "O Brasil e o presidente Lula estão assumindo seu lugar de protagonistas da liderança da nova América do Sul", disse Chávez. Para ele, os problemas de seu país vão passar. "Estamos fazendo uma revolução pacífica e democrática na Venezuela. É claro que todas as revoluções são acompanhadas de tormentas. Mas, depois da tormenta, virá o céu azul para a Venezuela." Chávez, antes da reunião para a formação do grupo, comentou que nenhum dos enviados dos EUA deveria participar desse encontro. "Pelo que entendi, se trata de uma reunião de presidentes. Bush está aqui?"

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