Brasil evita criticar o Sudão e pede envolvimento político

Ao mesmo tempo em que a ONU apresentava nesta terça-feira novas evidências do envolvimento do governo do Sudão na morte de parte das 200 mil vítimas na região de Darfur desde 2003, o Brasil afirmava na tribuna das Nações Unidas que não está na hora de "apontar culpados" pelos massacres. Os governos estão reunidos em Genebra nesta semana para lidar com o que está sendo chamada da maior crise humanitária do mundo na atualidade. Mas enquanto o bloco de países ocidentais aproveita a reunião para pedir que os responsáveis pelo massacre sejam investigados, o Brasil preferiu pedir para que a comunidade internacional ajude as autoridades locais a lidar com o problema, em mais uma demonstração de que não está disposto a criticar um governo africano. Uma resolução seria votada nesta terça-feira pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para enviar uma missão internacional ao país que investigaria a situação. Mas uma decisão ficou para quarta-feira, diante da falta de um acordo entre os países. De um lado, os países ocidentais pedem o envio de relatores independentes. De outro, os africanos querem o envolvimento político na missão, evitando que o resultado seja um relatório independente. O Brasil apresentou uma alternativa que até o começo da noite estava sendo negociada e que previa o envio de relatores independentes, mas acompanhados por uma importante personalidade política a ser escolhida e que traria "equilíbrio" aos resultados da investigação. Dessa forma, o País espera poder lidar com a crise, mas manter um caráter político em qualquer debate sobre o assunto.Para críticos da posição brasileira e mesmo segundo fontes no Itamaraty, a atitude tem uma relação direta com a política externa do governo de cooperação com os países africanos. Há duas semanas, o Brasil evitou apoiar uma resolução da Europa na ONU que pedia que as autoridades do Sudão fossem investigadas pelas mortes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizava uma viagem pela África naquela mesma semana.Nesta terça-feira, na ONU, o governo brasileiro deixou claro mais uma vez que não está disposto a criticar nenhum governo africano. O Itamaraty optou em seu discurso até por elogiar o governo do Sudão por aceitar debater o tema e ainda pediu para que o Estado africano fosse fortalecido para conseguir lidar com os problemas de direitos humanos. Já a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Louis Arbour, adotou uma postura de acusação contra o governo do Sudão. Segundo ela, não haveria dúvidas de que as autoridades estariam envolvidas nas mortes. Arbour aponta para uma "operação coordenada entre as forças governamentais e milícias, bombardeamento indiscriminado por aviões do governo, além de prisões arbitrárias e tortura por forças do governo". Arbour, apesar de também culpar as forças rebeldes pelos massacres, deixou claro ainda que "existe uma evidência crível no que se refere à responsabilidade do governo na modernização do arsenal e dos meios de transporte da milícia". Para o Brasil, porém, o tratamento da questão deve ocorrer de outra forma. "Nosso objetivo não pode ser o de apontar culpados", afirmou o Itamaraty. "Precisamos construir confiança entre atores. Precisamos ajudar o governo do Sudão a implementar um programa de desarmamento e fortalecer a capacidade do Estado do Sudão para lidar com os aspectos de direitos humanos da crise", completou o representante de Brasília. ViagemEm seu discurso, o Brasil ainda elogiou ter sido convidado pelo Sudão para visitar Darfur há cerca de um mês. "Apreciamos a abertura do governo do Sudão, que convidou representantes de governos para examinar situação no local", afirmou o Itamaraty. Para o Brasil, isso cria um "precedente construtivo". Para os ativistas da entidade Human Rights Watch, o que o Sudão está fazendo ao convidar países a visitar a região é manipular informação para convencer governos a não condenar o governo de Cartum. "O que fazem é uma lavagem cerebral", afirmou Leslie Lefkow, especialista da entidade. O governo da Argentina, que recebeu também o convite para visitar Darfur, optou por recusar a oferta do Sudão por acreditar que não seria apropriado. Salvo o Brasil e Cuba, a maioria dos países ocidentais que tomaram a palavra na ONU nesta terça-feira optou por responsabilizar diretamente o governo do Sudão por parte da crise. Para o governo da Holanda, por exemplo, há evidências de que os governos apóiam as milícias que atuam em Darfur. Argentina, Equador, Uruguai e Chile também apoiaram a visão ocidental. Já os Estados Unidos alertou que o governo do Sudão é o responsável pela proteção da população e pediu que Cartum pare de usar as milícias contra civis.Já o Sudão preferiu dizer que não mantinha qualquer relação com as milícias, disse que o número de mortos não passam de 9 mil e que a situação humanitária está melhorando. "A violência precisa parar. As mortes e violações precisam acabar", afirmou Kofi Annan, secretário-geral da ONU, que classificou a situação de "pesadelo".

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