Brasil intensifica críticas e vota contra a Síria na ONU

Resolução condena violação de direitos humanos no país; Turquia pede saída de Assad.

Maurício Moraes, BBC

22 de novembro de 2011 | 19h39

O Brasil foi um dos 122 países que aprovaram na ONU nesta terça-feira uma resolução crítica ao regime de Bashar al Assad, da Síria.

A resolução, que não tem efeito vinculante, foi aprovada por 122 votos a favor, 13 contra e 41 abstenções em um comitê da Assembleia Geral da ONU.

O documento "condena veementemente a contínua, grave e sistemática violação dos direitos humanos pelas autoridades sírias", destacando as "execuções arbitrárias"e a "perseguição" de manifestantes e ativistas.

A votação pode levar a questão síria de volta ao Conselho de Segurança, que tem o poder de adotar resoluções mais duras, incluindo uma eventual intervenção internacional.

A ONU estima que mais de 3.500 pessoas já morreram na repressão do regime de Assad às manifestações que, desde março, pedem reformas democráticas no país.

Apenas nesta terça-feira, 17 pessoas foram mortas no país, incluindo seis garotos entre 10 e 15 anos, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

Em outubro, uma resolução criticando a violação de direitos humanos na Síria chegou a ser votada no conselho, mas foi vetada pela Rússia e pela China.

'Covardia'

O voto marca uma postura mais firme adotada pelo Brasil na questão síria. As primeiras declarações do Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores), pedindo uma solução negociada, foram consideradas brandas em comparação a de outros países ocidentais e até mesmo do Oriente Médio.

Nesta terça-feira foi a vez do primeiro-ministro turco pedir a renúncia de Assad. Recep Tayyip Erdogan disse que as declarações do presidente sírio de que "vai lutar até a morte" não refletem "heroísmo, mas covardia".

"Se você quer ver alguém que lutou e morreu, olhe então para a Alemanha nazista, olhe para Hitler, ou para Mussolini (da Itália) e Ceausescu, da Romênia", disse.

O rei Abdullah, da Jordânia, também já pediu a renúncia de Assad, assim como líderes ocidentais.

Crítica

Uma fonte do Itamaraty disse à BBC Brasil que a diplomacia brasileira queira "enviar uma mensagem clara de crítica ao uso excessivo da violência e aos efeitos da violência da população civil síria".

O diplomata ressaltou posicionamento do Brasil contrário a operações como a liderada pela Otan, que resultou na queda do regime de Muamar Khadafi, na Líbia.

Desde o início da crise na Síria, o Brasil vinha defendendo uma solução negociada para a questão. Em agosto, o embaixador Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, subsecretário-geral para África e Oriente Médio do Itamaraty, foi até Damasco acompanhado de diplomatas da Índia e da África do Sul.

Após encontro com o presidente Assad, o trio divulgou uma nota pedindo o fim da violência no país. O texto foi criticado por condenar "a violência de todas as partes", em um momento em que organizações internacionais denunciavam a repressão das forças oficiais contra civis desarmados.

Outros tempos

Segundo a fonte diplomática, a mudança na postura brasileira, agora mais crítica, reflete a escalada de violência na Síria.

O Brasil já havia se manifestado a favor da menção crítica à Síria aprovada no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, em agosto.

Na época, foi criada uma comissão de observação chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que até o momento não conseguiu autorização para entrar na Síria, segundo a fonte diplomática.

A fonte do Itamaraty também reconheceu que o Brasil tem se pautado pela posição da Liga Árabe.

Na última semana, a Liga Árabe se reuniu no Marrocos, onde deu um ultimato à Síria exigindo o fim da violência. O país também foi suspenso da organização.

Após o encontro, manifestantes pró-Assad atacaram embaixadas de países que fizeram críticas ao regime sírio, como o Marrocos, a Arábia Saudita e até a França, que chegou a retirar seu embaixador de Damasco. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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