Alan Santos/PR - 24/9/2019
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Brasil rompe tradição diplomática e apoia na ONU embargo dos EUA a Cuba

Pela primeira vez o governo brasileiro se alinhou aos Estados Unidos e rejeitou resolução da Assembleia-Geral da ONU que pede o fim do bloqueio econômico americano contra ilha comunista

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 14h31
Atualizado 08 de novembro de 2019 | 13h28

NOVA YORK - A Assembleia-Geral da ONU condenou nesta quinta-feira, 7, pelo 28º ano consecutivo o embargo econômico dos Estados Unidos imposto a Cuba em 1962 por 187 votos a 3. Opuseram-se à condenação, além de EUA e Israel, o Brasil, que pela primeira vez rompeu uma tradição diplomática de apoio à resolução pedindo o fim do bloqueio.

 Ucrânia e Colômbia, outra aliada do governo de Donald Trump, se abstiveram. A Moldávia não votou. 

A Assembleia-Geral da ONU aprova todos os anos um texto denunciando os efeitos negativos da política americana e pedindo o seu fim - a medida não tem, porém, efeito vinculante.

O Brasil se posicionava a favor da resolução desde que foi apresentada pela primeira vez, em 1992. Em 2018, o texto foi aprovado por 189 países, com votos contrários apenas dos EUA e de Israel, e sem os votos de Moldávia e Ucrânia.

Apenas uma vez, em 2016, Washington se absteve de votar contra a resolução que condena o embargo em um contexto de aproximação do governo de Barack Obama para a ilha, que incluiu a reabertura de embaixadas nas duas capitais em 2015.

Governo Trump reverteu reaproximação

Mas Trump voltou atrás nessa política e continua aumentando a pressão contra a ilha com novas sanções que provocaram uma crise de energia e combustíveis e que busca reduzir à metade o turismo a Cuba, visitada no ano passado por 600 mil americanos.

Os EUA asseguram que o embargo é necessário para punir um governo que viola os direitos humanos de seu próprio povo e onde mais de 50 mil ativistas, jornalistas e outros foram presos arbitrariamente desde 2010, segundo a embaixadora na ONU, Kelly Kraft.

"Os Estados Unidos não são responsáveis pelos intermináveis abusos do regime contra a sua própria gente; não aceitamos responsabilidade por isso", disse na Assembleia a embaixadora americana na ONU, Kelly Kraft, reivindicando o direito de seu país a negociar com quem quiser.

Além disso, sustentou, "Cuba é um contribuinte ativo à instabilidade regional" e "colabora com o antigo regime de (Nicolás) Maduro, perpetuando uma crise humanitária e econômica que se estende para além das fronteiras da Venezuela", destacou.

Alinhamento com os EUA 

Aparentemente, a mudança brasileira se deve mais à tentativa do governo de Jair Bolsonaro em reforçar o alinhamento ideológico com o governo do presidente de Trump do que uma revisão fundamentada da posição diplomática brasileira.

Bolsonaro, que costuma elogiar a ditadura militar brasileira, tem criticado a política anterior em relação a Cuba e disse que iria investigar empréstimos do Brasil à ilha.

Em seu discurso na Assembleia-Geral da ONU em setembro, Bolsonaro afirmou que um plano de Fidel Castro, Hugo Chávez e Lula para estabelecer o socialismo na América Latina ainda está vivo e precisa ser combatido.

Pressão dos EUA

No começo desta semana, o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez, denunciou as "pressões" feitas pelos Estados Unidos sobre países latino-americanos para obter votos contra o projeto de resolução que Cuba apresenta todos os anos à ONU para condenar o embargo imposto pelo governo americano.

Em comunicado lido diante da imprensa credenciada pela ONU, Rodríguez frisou que essas pressões têm sido realizadas por embaixadas dos EUA nas capitais de seis países latino-americanos, os quais não especificou. Rodríguez ressaltou também que "na penúltima semana de outubro foram convocadas em Washington, pelo Departamento de Estado, as embaixadas de quatro países latino-americanos, com o objetivo de obter os votos delas contra o tal projeto de resolução".

O chefe da diplomacia cubana, que não aceitou perguntas, declarou que "Cuba sabe que conta com o apoio unânime dos povos latino-americanos e do planeta, e espera que nenhum governo da região se submeta às decisões anticubanas de Washington". / AFP, EFE e REUTERS

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