ZEIN AL-RIFAI/AFP
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Brasil muda voto e passa a apoiar resolução na ONU que condena crimes na Síria

Em março, o Itamaraty havia optado por se abster numa resolução sobre o mesmo tema

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

02 de julho de 2015 | 16h22

GENEBRA - O Brasil mudou nesta quinta-feira, 2, seu voto e passou a apoiar uma resolução na ONU que condena tanto o regime de Bashar Assad na Síria como os grupos terroristas pelos crimes cometidos contra a população. A votação ocorreu no Conselho de Direitos Humanos da ONU. 

Em março, o Estado revelou que o governo se absteve em uma resolução na ONU que tinha o mesmo objetivo. O comportamento do Itamaraty causou grande protesto dos governos europeus e dos EUA, além de ONGs e grupos sírios de direitos humanos. Naquele momento, o Itamaraty insistiu que não havia mudado sua postura e a abstenção era "coerente" com a posição da diplomacia nacional em relação à busca de uma solução política para a guerra. 

Agora, o Itamaraty optou por apoiar o texto, ainda que dando uma explicação de que não ficou satisfeito com todo o conteúdo da resolução.

Por 29 votos a favor, 12 contra e 6 abstenções, a resolução foi aprovada "condenando energicamente as violações generalizadas e sistemáticas de direitos humanos cometidas pelas autoridades sírias e milícias pró-governamentais". 

O governo brasileiro explicou seu novo voto. "Considerando a grave situação no campo, o Brasil vai votar a favor da resolução", declarou a embaixadora brasileira na ONU, Regina Dunlop. Nos bastidores, diplomatas brasileiros conseguiram introduzir alguns parágrafos extras no texto, insistindo que apenas uma solução política pode existir e deve ser liderada pelo povo sírio. 

Mas o Brasil alertou que o texto não atendeu alguns de seus objetivos. Para Regina, ao não dar atenção suficiente à violência cometida por alguns grupos de oposição, o texto poderia "ampliar a intolerância e incentivar a violência". "Não podemos dar a impressão de que existem atrocidades piores que outras", justificou diante do Conselho da ONU. 

O texto teve amplo apoio da Europa e da América Latina. "Não podemos ficar em silêncio", disse a Grã-Bretanha, principal autor da proposta. "Assad, terroristas e grupos moderados precisam parar a guerra", insistiu Londres, apontando que se trata de um "texto equilibrado". O governo americano saiu em apoio à resolução e, antes da votação, apelou para que o texto tivesse o "apoio de todos". 

Em seu quinto ano, a guerra na Síria já fez mais de 220 mil mortos. "Os países que estão propondo essa resolução ignoram nossa soberania. Eles apoiam o terrorismo", denunciou o embaixador da Síria na ONU, Hussam Eddin Ala. "Que ironia ter uma resolução proposta por esses países. Trata-se de uma hipocrisia política", atacou. "De onde vem o dinheiro para as armas dos grupos terroristas?", questionou. 

O governo russo criticou a resolução e votou contra. "Hoje, a maior ameaça é o Estado Islâmico", declarou o representante do Kremlin. "E isso não está no documento. Os autores da proposta estão com posições politicas", declarou. 

O governo da Venezuela também acusou a proposta de ser uma "iniciativa política", enquanto Cuba denunciou uma "agenda intervencionista" na Síria.  Já a China alertou que investigações externas " não ajudam " e votou contra.

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