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Brasil no mapa do terror

A ameaça do terrorismo pode servir de incentivo para mobilizar a sociedade no Brasil

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2016 | 05h00

A prisão dos dez suspeitos de terrorismo em dez Estados brasileiros, na quinta-feira, confirma a hipótese de ameaça que os órgãos de inteligência têm tratado como prioritária: a autorradicalização, uma vez que não foi detectada a presença de células locais nem de recrutadores estrangeiros de grupos terroristas no País. O que não diminui o desafio; pelo contrário. 

A constatação de que a mensagem do Estado Islâmico pode traduzir a agressividade de brasileiros comuns abre um novo horizonte de ameaças que, embora seja ampliado pelos Jogos Olímpicos, não se encerrará junto com eles. Os alvos, ainda que associados aos americanos e aos europeus, continuarão existindo aqui em grande quantidade. Dois dos maiores atentados da Al-Qaeda, contra as embaixadas americanas de Nairóbi e Dar-es-Salaam, em 1998, mataram mais de 200 quenianos e tanzanianos. Não é preciso um evento internacional para que isso aconteça.

Toda cultura oferece um cardápio de expressões para a agressividade humana: violência doméstica, criminalidade urbana, intolerância religiosa, xenofobia. No Brasil, a criminalidade tem ocupado o lugar que os massacres ocupam nos EUA e o terrorismo ocupa na Europa, no Oriente Médio e em partes da Ásia e da África. A desigualdade social tende a esconder essa agressividade sob o manto da necessidade material. Mais e mais, no entanto, até como resultado dos programas sociais, os roubos têm tido motivos mais fúteis, como um tênis de marca ou um celular.

O êxito do EI se deve a uma diferença fundamental em relação à Al-Qaeda e a outros grupos. Um atentado terrorista, para ter o selo da Al-Qaeda, precisa ser feito por um grupo que tenha sido formalizado como sua franquia. Ela tem uma hierarquia, orientada por estratégia e objetivos claros, de tomar o poder nos Estados muçulmanos e implantar neles teocracias regidas pela fé wahabita, que busca uma suposta “pureza” do Islã. Já o conceito de “califado” do EI é vago o suficiente para justificar qualquer ação que lhe dê notoriedade. Não foi por acaso que o EI surgiu depois que suas células na Síria foram expulsas da Al-Qaeda, que não aceita que em seu nome se cometam estupros, saques ou massacres de muçulmanos sunitas.

A frouxidão moral e ideológica do EI se revelou uma força extraordinária. O EI não é nada, e por isso pode ser tudo. É um grande estuário da agressividade humana, seja ela de que origem for. Omar Mateen, o autor do massacre de Orlando, e Mohamed Bouhlel, de Nice, não eram sequer muçulmanos praticantes. Suas ações foram respostas a sofrimentos psicológicos, e essas respostas foram potencializadas pela mensagem do EI, que lhes conferiu um heroísmo, um ganho narcísico na hora de pôr fim ao seu tormento. Essa capacidade da mensagem do EI de incentivar a passagem ao ato terrorista e de potencializar a resposta a dores tão comuns e tão difundidas representa uma ameaça extraordinária.

Essa ameaça chegou ao Brasil, que precisa aprender a lidar com ela. Para isso, em primeiro lugar, é preciso entender onde reside a força do terrorismo. O coronel Alessandro Visacro, do Exército, especialista em terrorismo e autor do recém-lançado “Guerra Irregular”, costuma dar o seguinte exemplo: terroristas abrem fogo num terminal rodoviário e matam um pequeno número de pessoas. A força tática chega em poucos minutos e elimina todos os terroristas, evitando um número maior de vítimas. Do ponto de vista “cinético”, ou seja, da operação em si, ela foi um sucesso. Mas a morte dos terroristas fazia parte do objetivo deles, de produzir um efeito de propaganda. Nesse ambiente “informacional”, no qual o terrorista se move — e não no físico —, ele venceu. 

Assim, para derrotar o terrorismo é preciso não só vencê-lo fisicamente, mas também simbolicamente, no plano da informação. O Brasil perdeu a primeira batalha para o terrorismo. Seu objetivo era que, a duas semanas da abertura dos Jogos, estivéssemos abrindo os cadernos de Esportes com os atletas que estão a caminho, os preparativos para a grande festa, e não a ameaça terrorista. 

Mas a guerra não está perdida. No campo “cinético”, por uma triste razão, o Rio está muito mais preparado que Paris ou Bruxelas para a ameaça terrorista: as equipes de resgate e os hospitais estão acostumados a atender pacientes com perfurações de bala, e as patrulhas policiais comuns já usam fuzis. No campo “informacional”, o desafio é o mesmo enfrentado pelo mundo todo: retirar o glamour do terrorismo, arrancar sua máscara de coragem e heroísmo. 

Para que essa contrapropaganda tenha impacto sobre o público-alvo do EI, os jovens mais vulneráveis, é necessária uma rede de assistência social e psicológica que o Brasil está longe de ter. A criminalidade urbana não mobilizou a sociedade para isso. A ameaça do terrorismo poderia servir de incentivo.

 

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