''''Brasil nos dará vida'''', diz palestino

Planos de refugiados que embarcam quinta-feira da Jordânia para o País incluem abrir restaurante e casar com brasileira

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2018 | 00h00

Ruwayshid, Jordânia - Ahmed quer ter um pedaço de terra, uma vaca e uma esposa brasileira. Ali Samir quer ser comerciante, Mohamed Sadi tem planos de abrir um restaurante e Issa pretende dar aulas de agronomia.Em tendas precárias no meio do deserto e na fronteira entre a Jordânia e o Iraque, sonhos, planos, temores e dúvidas ocupam as mentes e olhares de cada um dos 117 refugiados palestinos do Iraque que, na quinta-feira, começam a embarcar para o Brasil. Assim é o campo de Ruwayshid, aberto na Jordânia logo após a queda do regime de Saddam Hussein no Iraque, em 2003. Agora, ele será fechado graças a um acordo entre a ONU e o governo brasileiro para que o País receba os 117 refugiados. O local já chegou a ter mil pessoas e a perspectiva de encontrar um país que acolha esses palestinos é motivo de festa. "Aqui não temos vida. O Brasil nos dará vida", afirmou Mustafa Khaled, de 18 anos.A depressão dos últimos meses no campo foi substituída pelo entusiasmo da viagem. Muitos, porém, admitem que não sabem o que pensar sobre o Brasil e reconhecem que hesitaram em aceitar a proposta por causa da língua. "Mas logo ficou claro para todos que era isso ou nada", disse Anne-Marie Deutschlander, funcionária da ONU na Jordânia. A tragédia vivida pelos palestinos que estão em Ruwayshid não é novidade. Muitos estão saindo de um país pela quarta ou quinta vez. Nos anos 80, esses refugiados, muçulmanos sunitas, foram recebidos por Saddam em Bagdá, onde ganharam casas. Com a queda do regime, passaram a ser alvo das milícias xiitas e tiveram de fugir.Quatro anos depois, as barracas tornaram-se mais que um local provisório, já que poucos países os aceitavam. O campo ganhou pequenos jardins para tentar recuperar a idéia de um lar, divisões no interior das tendas foram improvisadas para marcar o local da sala, quartos e cozinha. Alguns, como Ahmed Mustafa, ainda usam sua experiência como eletricista na instalação de TVs, luz e ventiladores para tentar suportar o calor de 40 graus do dia no deserto.A vida nos últimos quatro anos foi dura. Diarréia, falta d?água e desidratação foram problemas constantes. À noite, nem todos tinham roupas suficientes para agüentar o frio da noite no deserto. Isso sem contar as tempestades de areia. Mas todos concordam que o pior sofrimento foi mesmo o psicológico. O pior momento do campo foi quando o Canadá anunciou em 2006 que iria dar asilo aos palestinos, mas aceitaria apenas cerca de 50. Os que não foram selecionados se sentiram rejeitados. Um deles até sofreu um mortífero ataque cardíaco. "Ele não suportou a informação que recebeu", afirmou Rashida Uma Adnana, de 75 anos, mãe da vítima. "Sou corajosa e sei que poderei adaptar-me ao Brasil. Afinal, já é a quinta vez que mudo de país", acrescentou. "Fomos prisioneiros aqui. Não fomos autorizados a trabalhar nem a deixar o local", afirmou Rajai Lama, engenheiro mecânico de origem palestina, que também morava em Bagdá antes da queda de Saddam.Ruwayshid viveu ainda histórias de nascimentos e casamentos. Maham, filho de Ahmed Mustafa, tem 3 anos e nasceu no campo. Mustafa disse que decidiu ter um filho para "tentar continuar" a viver. "Agora, meu filho poderá até ser um jogador de futebol", afirmou.Ahmed Abuza Mak e Sadia Samir Sabri conheceram-se em plena fuga de Bagdá e casaram-se há um ano. "Nunca me esquecerei deste lugar, pois foi onde encontrei meu marido", afirmou Sadia. Um dos mais entusiasmados com a viagem é o ex-diretor de teatro de Bagdá Ghazi Shaheen, que já compôs uma música em homenagem ao Brasil. "A canção serve para mostrar ao Brasil que eu quero conhecer o povo do País que me aceitou", afirmou o artista. Ele também compôs a melodia de um samba, mas diz que só escreverá a letra quando chegar ao Brasil.Já Issa conta que era professor de agronomia na Universidade de Bagdá e espera continuar as pesquisas nas instituições brasileiras. "Sei que será difícil, mas vou tentar", afirmou. "Mataram quatro professores do meu departamento apenas porque eram sunitas. Deixei tudo em Bagdá, incluindo minha ampla biblioteca."Funcionários mais experientes do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) alertam que muitos dos sonhos serão difíceis de realizar. "Não podemos criar a expectativa de que o Brasil seja o paraíso. Mas também não podemos impedir que as pessoas sonhem, depois de quatro anos vivendo numa tenda no deserto. A integração deve ser um processo lento", afirmou um dos funcionários.Um só pedido é feito pelos próprios refugiados - e vem dos mais velhos: não falar de política. "Eu só quero viver. Não quero saber de política", disse Shaheen.

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