Victor Moriyama / EPA / EFE
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Brasil nos passos do Irã

Fornecedores de commodities, como o Brasil, são facilmente substituíveis por concorrentes

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 03h00

Na coluna do dia 4, escrevi que a atitude do governo brasileiro em relação ao meio ambiente me lembrava o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. Com sua retórica provocativa, associada à descoberta de evidências de que o Irã desenvolvia um programa nuclear subterrâneo, Ahmadinejad atraiu as suspeitas e a hostilidade do Ocidente, culminando nas sanções comerciais que devastaram a economia iraniana.

Há três semanas, quando fiz essa comparação, não havia ameaças de sanções comerciais contra o Brasil; agora, há. O governo da Finlândia, que preside atualmente a União Europeia (UE), propôs sanções contra a carne brasileira.

França e Irlanda ameaçaram bloquear o acordo Mercosul-UE. O assunto foi levado, em caráter emergencial, à reunião do G-7, neste fim de semana, na França, pelo anfitrião do encontro, Emanuel Macron. A Amazônia tem tamanho apelo sobre a opinião pública mundial que o Brasil ficou isolado. Nem mesmo líderes da corrente nacional-populista de Jair Bolsonaro, como o americano Donald Trump e o britânico Boris Johnson, vieram a seu socorro.

Um funcionário da Casa Branca que não quis se identificar declarou à agência Reuters: “Estamos profundamente preocupados com o impacto das queimadas na Floresta Amazônica sobre as comunidades, a biodiversidade e os recursos naturais da região”.

Um porta-voz de Downing Street 10 usou uma linguagem parecida. E foi além: “O efeito dessas queimadas será sentido ao redor do mundo, razão pela qual precisamos de ação internacional para proteger as florestas tropicais mundiais. O Reino Unido continuará a apoiar projetos no Brasil para fazer isso, e o primeiro-ministro usará o G-7 para defender um foco renovado em proteger a natureza e lidar com a mudança climática”.

O presidente francês tuitou: “Nossa casa está pegando fogo. Literalmente. A Floresta Amazônica – o pulmão que produz 20% do oxigênio do nosso planeta – está em chamas. É uma crise internacional. Membros do G-7, reúnam-se dentro de dois dias para falar dessa emergência”.

Esses termos levaram o general Eduardo Villas Boas, ex-comandante do Exército, a se queixar de ataque à “soberania nacional”. Em cerimônia do Dia do Soldado, e na presença de Bolsonaro, o atual comandante, general Edson Leal Pujol, advertiu: “Aos incautos que insistem em tutelar os desígnios da brasileira Amazônia, não se enganem, os soldados do Exército de Caxias estarão sempre atentos e vigilantes, prontos para defender e repelir qualquer tipo de ameaça”.

Essas reações, e o seu tom patético, também lembram o Irã de Ahmadinejad. Da mesma maneira que os nacional-populistas iranianos argumentavam que Israel dispunha de armas nucleares, e portanto o Irã também tinha esse direito, seus equivalentes brasileiros lembram que a Europa desmatou suas florestas, e portanto não tem “autoridade moral” para pressionar o Brasil.

As sanções congelaram as exportações de petróleo do Irã, asfixiaram suas finanças e a classe média iraniana encolheu. Como resultado, o regime permitiu a eleição em 2013 do moderado Hassan Rohani, abrindo caminho para o acordo nuclear iraniano. O país voltou a exportar petróleo e a se reerguer, até que Trump rompeu o acordo. O Irã agora depende da capacidade dos países europeus de evitar o bloqueio americano para se manter no mercado. Caso contrário, uma nova onda nacional-populista pode voltar ao Irã, nas eleições de 2021.

Assim como o petróleo iraniano, os produtos agropecuários brasileiros, que são motor da nossa economia, são commodities. É fácil substituir seus fornecedores, e os concorrentes, incluindo americanos e europeus, estão sempre à espreita. O agronegócio brasileiro não precisa das terras da Amazônia para abastecer o mundo. Defender o Brasil é não dar pretextos ao protecionismo de nossos concorrentes.

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