Brasil, o vencedor na ampliação do Mercosul

A Venezuela pode parecer a vitoriosa, mas as poucas possibilidades de exportação e a economia estatizada significam revezes em sua relação com os vizinhos

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO , PULITZER, ANDRES, OPPENHEIMER, THE MIAMI HERALD , É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO , PULITZER, ANDRES, OPPENHEIMER, THE MIAMI HERALD , O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h06

A sabedoria convencional diz que a Venezuela foi a grande vencedora da última cúpula do Mercosul, quando o país ingressou oficialmente, enfim, no bloco comercial sul-americano. Para mim, porém, o grande vencedor foi o Brasil. Evidentemente, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao lado da presidente brasileira, Dilma Rousseff, da presidente argentina, Cristina Kirchner, e do presidente uruguaio, José Mujica, foi o centro das atenções em Brasília, enquanto assinava a incorporação oficial da Venezuela ao Mercosul.

Era a primeira viagem oficial ao exterior de Chávez não relacionada ao seu tratamento de câncer, em Cuba, em mais de um ano e uma grande vitória propagandística em sua campanha para vencer a a eleição de 7 de outubro em seu país.

A foto de Chávez sorrindo ao lado dos presidentes dos maiores países da América do Sul não só o ajudou a desarmar alegações de críticos de que ele não está fisicamente apto a concorrer à presidência, mas também o ajudou a defender, em seu país, que ele não é nenhum pária internacional cujos amigos estrangeiros são os ditadores de Cuba, Síria, Irã e Bielo-Rússia.

De mais a mais, a incorporação da Venezuela ao Mercosul deu à campanha de reeleição de Chávez um novo tema para reforçar as esperanças dos venezuelanos, no momento em que o país se vê às voltas com uma inflação galopante, seguidos apagões de energia e índices recordes de criminalidade.

"Essa é a maior oportunidade histórica da Venezuela em 200 anos", disse Chávez na cerimônia do Mercosul. "O Mercosul será, sem dúvida, o principal motor para garantir nossa independência e acelerar nosso desenvolvimento." Com a inclusão da Venezuela, o bloco será a "quinta potência mundial", com uma economia combinada de US$ 3,3 trilhões, 83% da produção econômica da América do Sul e 270 milhões de pessoas, de acordo com ele.

No entanto, um teste de realidade nas afirmações grandiloquentes feitas por Chávez e pelos outros presidentes na cerimônia de Brasília revela que o Mercosul, longe de ser um gigante econômico em ascensão, corre o risco de seguir os passos de malfadadas associações sul-americanas anteriores de livre comércio, como a Alalc, nos anos 60, e a Aladi, na década de 80.

Para começar, o comércio entre os membros do Mercosul vem caindo acentuadamente nos últimos anos. Segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e Caribe (Cepal), o comércio entre os membros do Mercosul, que chegou a representar 25% do comércio do bloco com o resto mundo, em 1998, caiu para 15,2% no ano passado.

O declínio não ocorreu apenas em razão do fato de que os membros do Mercosul aumentaram dramaticamente seu comércio com a China, mas também porque eles estão colocando obstáculos comerciais crescentes entre eles. No começo deste ano, a Argentina adicionou quase 200 produtos - incluindo laptops e motos - em sua lista de importações mundiais que requerem licenças de comércio exterior não automáticas, bloqueando dezenas de importações de países do Mercosul.

O Brasil retaliou, bloqueando importações automáticas de vários produtos argentinos, entre os quais vinho e batata. O comércio entre Brasil e Argentina, os maiores membros do bloco comercial, deve diminuir 10% este ano.

Quanto à alegação de Chávez de que com a inclusão da Venezuela o Mercosul seu país será a "quinta potência mundial", a verdade é que o Brasil, sozinho, já é a quinta ou sexta economia do mundo.

Questionados se a entrada da Venezuela no Mercosul dará um renovado vigor ao bloco, especialistas em comércio foram céticos. Eles dizem que, após 12 anos de políticas econômicas desastrosas de Chávez, a Venezuela, rica em petróleo, ficou virtualmente sem nenhuma indústria de fabricação competitiva e precisa importar aproximadamente 70% de suas necessidades alimentares. Portanto, ela não tem quase nada para exportar a seus colegas do Mercosul.

Para a maioria dos especialistas, a expansão do Mercosul é, mais do que tudo, um "teatro político". A economia estatal da Venezuela está tão em descompasso com as regras do Mercosul que o documento que Chávez assinou na semana passada contém centenas de exceções. Com o passar dos anos, a Venezuela terá de adicionar outras centenas, dizem especialistas.

Na minha opinião, se há algum vencedor no ingresso da Venezuela no Mercosul, é o Brasil. E, em menor grau, a Argentina. Ambos poderão vender alimentos e produtos manufaturados à Venezuela com tarifas preferenciais.

Na reunião em Brasília, Dilma e Chávez já assinaram um acordo para a compra pela Venezuela de seis aviões comerciais Embraer E-190, fabricados no Brasil. Isso faz parte de um acordo ainda maior que poderá incluir compras venezuelanas no valor de US$ 900 milhões.

Eles poderiam ter feito tudo isso sem todo o show do Mercosul, mas Chávez queria a coreografia para vender aos eleitores em casa o sonho de que eles estarão se juntando ao expansivo bloco comercial sul-americano. Isso pode ser bom para Chávez, mas não necessariamente para a Venezuela. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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