Gabriela Biló/Estadão
Queimada em Santo Antonio do Matupi, sul do Amazonas Gabriela Biló/Estadão

Brasil perdeu chance de apresentar metas mais ousadas na cúpula do clima, dizem especialistas

Bolsonaro apresentou metas nesta quinta em cúpula de líderes sobre o clima; empresário e ex-ministro também defenderam plano nacional para desenvolvimento e proteção da Amazônia

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 22h14

O governo brasileiro perdeu uma grande chance de deixar claro seu compromisso contra o desmatamento na Cúpula dos Líderes sobre Clima, segundo especialistas que participaram nesta quinta-feira, 22, do evento O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil, promovido pela Fundação Fernando Henrique Cardoso. A política ambiental da gestão Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas no Brasil e no exterior. 

Em pronunciamento na cúpula nesta quinta, Bolsonaro estabeleceu o compromisso de atingir a neutralidade das emissões de gás carbônico até 2050, mas sem um plano concreto para cumprir essas metas. Outros países já haviam apresentado metas mais ambiciosas anteriormente. O presidente brasileiro também falou em zerar o desmatamento ilegal até 2030, mas voltou a cobrar recursos estrangeiros para intensificar o combate aos crimes ambientais. A reunião foi convocada pelo presidente americano Joe Biden, com a participação de governantes de 40 países, incluindo o Brasil.

"O Brasil desperdiçou uma grande oportunidade. Era o momento de anunciar que estamos de volta aos trilhos", comentou Rachel Biderman, vice-presidente para as Américas da Conservação Internacional. Ela - advogada, mestre em Ciência Ambiental e em Direito Internacional, e doutora em Gestão Pública e Governo - lamentou os recordes de desmate e incêndios florestais dos últimos anos, lamentando a postura federal no combate a esses problemas.

Para Beto Veríssimo, outro especialista na área, o governo brasileiro deveria ter apresentado proposta mais ambiciosa. "A Amazônia tem 20% de sua área devastada e outros 20% constituídos por florestas degradadas. O Brasil poderia ter dito hoje que estaria caminhando para o desmatamento zero nesta década. Passou a imagem de que é um País que não cuida bem do seu patrimônio", afirmou o cofundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Para Entender

O que é o encontro convocado por Joe Biden

Reunião de líderes mundiais quer estabelecer novos compromissos para a redução das emissões de carbono e nasceu do interesse americano de se recolocar como protagonista no cenário internacional após os anos Trump

Engenheiro agrônomo e pesquisador visitante da Universidade Princeton (EUA), ele reforça que a atividade ilegal de cortar árvores da Amazônia precisa ser combatida. "O desmatamento não tem finalidade produtiva. É roubo de floresta pública. Em março, o desmatamento cresceu 216%... Enquanto está todo mundo em casa em isolamento social (por causa da pandemia), quem desmata está lá", comentou.

Para Raul Jungmann, presidente do IREE Soberania e Clima (ISC), é preciso combater esses problemas com um grande projeto nacional para a região. "A Amazônia é um vazio de poder. E, ao mesmo tempo, pouco se fala no Brasil nacionalmente sobre a Amazônia. O Brasil nunca soube o que quer para a Amazônia, nunca teve um projeto nacional para lá. Precisamos disso, estruturado, para o desenvolvimento sustentável da região", afirmou o político, que já foi ministro da Defesa, da Segurança Pública e da Reforma Agrária, além de presidir o Incra e o Ibama.

Outro convidado do evento, Denis Minev, transmitiu sua visão de empreendedor na região - ele é diretor presidente das Lojas Bemol. "Não sabemos usar bem a floresta, essa é uma verdade. Seria importante redescobrir uma identidade brasileira através da Amazônia", indicou ele, que também já foi secretário de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Estado do Amazonas e um dos fundadores da Fundação Amazônia Sustentável e da Plataforma Parceiros Pela Amazônia.

Minev aproveitou para citar exemplos de ações que podem ajudar no desenvolvimento da Amazônia sem acabar com sua floresta. "Precisaria de iniciativas de 'rematamento', para recuperação de áreas degradadas, com sistemas agro-florestais que permitem que você encontre equilíbrio para desenvolvimento econômico. Poderia ter um plano nacional disso. Acredito que precisamos de projetos redentores, de uma Amazônia como solução para o Brasil. Mas, infelizmente, não estamos usando direito os recursos humanos nem os naturais para isso."

O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil teve a participação ainda de outros convidados e contou com a abertura feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele defendeu que é "preciso cuidar da Amazônia, da sua riqueza, sem achar que é intocável". Segundo ele, o desafio será encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental e é melhor que os brasileiros façam as políticas de proteção "do que os estrangeiros venham para cá fazer isso".

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Precisamos cuidar da Amazônia, mas sem achar que ela é intocável, diz FHC

Melhor que o Brasil faça suas políticas ambientais do que estrangeiros venham fazer isso, diz ex-presidente em evento sobre a floresta; equilíbrio entre desenvolvimento sustentável e proteção é desafio

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 18h31

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu nesta quinta-feira, 22, ser "preciso cuidar da Amazônia, da sua riqueza, sem achar que é intocável". Segundo ele, o desafio será encontrar o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental e é melhor que os brasileiros façam as políticas de proteção "do que os estrangeiros venham para cá fazer isso".

Fernando Henrique participou do evento O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil, promovido pela fundação que preside. Convidado para fazer a fala de abertura, Fernando Henrique abordou sua relação pessoal com a região Amazônica e apontou os caminhos que poderiam ser feitos para "cuidar" da floresta. 

Nesta semana, ocorre a Cúpula de Líderes sobre o Clima, convocada pelo presidente Joe Biden, com a participação de governantes de 40 países, incluindo o Brasil. Após recordes de desmatamento e incêndios, a política ambiental de Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas no exterior

"Conheci a Amazônia tarde, quando eu já era presidente. Certa vez dormi numa rede no meio da floresta e fiquei muito impressionado com o que vi. A Amazônia provoca forte emoção para mim, pois minha mãe nasceu em Manaus. É claro que não é uma região intocável, mas é muito importante para nós brasileiros", disse.

Ele explicou que gostaria de mostrar seu ponto de vista a partir de suas experiências com a Amazônia. "A primeira sensação é de imensidão. Tudo é numa escala muito grande. Então, entendo que é preciso cuidar da Amazônia, de sua riqueza, mas sem achar que é intocável", comentou.

Sociólogo, professor e pesquisador, ele aposta no desenvolvimento sustentável como saída para a região. "Temos consciência da necessidade de preservar, mas também de preservar a vida. Existe um adensamento populacional dentro daquela mata. É preciso equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico daquela região", disse.

Presidente da República de 1995 a 2003, FHC reconhece que muitas vezes é "fácil falar, mas difícil fazer". E aponta caminhos para tentar chegar a essa solução. "É importante desenvolver políticas para isso e não destruir o que é fonte de vida. E acho que é melhor que os brasileiros façam essa política do que os estrangeiros venham para cá para fazer isso", concluiu.

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Discurso de Bolsonaro em cúpula do clima parece defesa do direito de desmatar, diz especialista

Coordenadora do Instituto Socioambiental critica pedido de verba estrangeira e vê promessas retóricas do presidente; governador do Maranhão defende recursos naturais como ativos estrategicos

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 21h24

No discurso feito pelo presidente Jair Bolsonaro na Cúpula dos Líderes sobre Clima nesta quinta-feira, 22, o Brasil praticamente defendeu seu direito de desmatar, avalia a coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA), Adriana Ramos. Para ela, pedir recursos estrageiros para combater crimes ambientais “é como se estivesse dizendo: 'posso desmatar, mas para eu não desmatar preciso de investimento'”. Na opinião da especialista, “essa é uma premissa que vai na contramão de qualquer perspectiva de uma Amazônia 4.0”.

Adriana participou na noite desta quinta do evento O mundo de olho na Amazônia: Ameaças e oportunidades para o Brasil, organizado pela Fundação FHC. No primeiro painel, além de Adriana estavam o empresário Pedro Passos, copresidente do Conselho de Administração da Natura; Sergio Etchegoyen, presidente do Conselho do IREE Soberania e Clima (ISC) e ex-ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; e Flávio Dino (PCdoB), governador do Maranhão e presidente do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal.

Na Cúpula do Clima nesta quinta, Bolsonaro estabeleceu o compromisso de atingir a neutralidade das emissões de gás carbônico até 2050, mas sem um plano para cumprir essas metas. Outros países já haviam apresentado metas mais ambiciosas anteriormente. O presidente brasileiro também falou em zerar o desmatamento ilegal até 2030, mas voltou a cobrar recursos estrangeiros para intensificar o combate aos crimes ambientais. 

Para Adriana, Bolsonaro falou de mudanças retóricas que ela espera que se concretizem em mudanças efetivas, embora isso não tenha sido sinalizado e ressaltou que “ainda paira sobre nós a ameaça do negacionismo, que foi o que nos tirou da liderança (do tema ambiental) e nos colocou nessa situação lamentável que o Brasil vivenciou: de o nosso presidente fazer uma manifestação e o presidente dos Estados Unidos já não estar mais na sala”. Segundo ela, isso jamais tinha ocorrido nas últimas três décadas.

A coordenadora do ISA ressaltou que esse negacionismo tem impedido o País de construir uma perspectiva nova no tratamento da questão da Amazônia. “Temos enorme acúmulo de conhecimento, de experiências desenvolvidas nas últimas décadas. Desenvolvemos pesquisas, fortalecemos uma agenda de ordenamento e gestão de territórios, experiências de produção sustentável. Mas tudo isso vem sendo ignorado e até rejeitado pelo governo", acrescenta ela. 

Investimento em ciência e tecnologia

Pedro Passos não citou diretamente o discurso de Bolsonaro, mas lembrou que a Região Amazônica tem 210 milhões de hectares protegidos por serem comunidades de conservação ou terras indígenas, que estão fazendo seu papel de conservar a floresta em pé. “E é isso que vai ter valor em um novo modelo de desenvolvimento, e não a exploração das cadeias produtivas tradicionais", diz. A Natura tem fábrica naquela região há 24 anos. 

Ele vê a Amazônia como solução para o novo modelo de desenvolvimento nessa fase da economia do baixo carbono e no enfrentamento da crise climática. Para isso, Passos defendeu como vetores principais o investimento em ciência, tecnologia e inovação para aprofundar conhecimentos sobre a biodiversidade e também a diplomacia ambiental para promover os interesses do Brasil e dos países da América do Sul na regulação do mercado de carbono.

O governador Flávio Dino reforçou ser necessário a compreensão de que mudanças climáticas, Floresta Amazônica e economia verde não são agendas externas à Amazônia, mas agendas em favor da região. “Não são obstáculos. São ativos estratégicos em favor da melhoria de qualidade de vida de 30 milhões de brasileiros que moram na Amazônia.”

Soberania dos países

Ele também defendeu mecanismos que garantam a justa remuneração de serviços do ecossistema ambiental e avaliou como correta a iniciativa apresentada na reunião da cúpula de um fundo de investimentos de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,44 bilhões) em florestas tropicais para governos que demonstrarem que não houve desmatamento. “A iniciativa é útil porque vai na direção correta de pagamento por performance, por resultados”, disso o governador.

“É preciso entender que a Amazônia está descuidada porque a elite dirigente do País não tem essa preocupação”, afirmou Sergio Etchegoyen. O ex-ministro ressaltou ainda que “a mudança climática não respeita fronteiras” e, portanto, a preservação exige convergência dos interesses da soberania dos nove países que abrigam partes da região amazônica.

Em sua opinião, a Amazônia preservada e explorada com sustentabilidade, dentro da legalidade, vai significar a convergência dos nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela) cujos territórios abrangem uma parte da floresta. Essas nações serão capazes de fundar um novo centro irradiador de economia, de preservação, de projeção de uma nova economia.

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Ricardo Salles

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