'Brasil pode ajudar no diálogo com Pyongyang'

Líder sul-coreana chega hoje ao Brasil para visita e terá encontro com a presidente Dilma Rousseff em Brasília

FELIPE CORAZZA, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2015 | 02h01

A presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, desembarca hoje no Brasil para uma visita oficial de dois dias e traz um pedido ao governo brasileiro: mais cooperação para pressionar a Coreia do Norte iniciar de negociações. Park será recebida pela presidente Dilma Rousseff em Brasília hoje. Amanhã, a líder sul-coreana participará de um evento da indústria têxtil e de moda em São Paulo.

Em entrevista por e-mail ao Estado, Park afirmou que o processo de reunificação da Península Coreana precisa de apoio dos países que mantêm canais diplomáticos com o Norte e manifestou preocupação com as pretensões do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, de mudar a natureza pacífica da Constituição do Japão - com foco específico em um reforço da área militar. A seguir, os principais trechos da entrevista:

A sra. pretende pedir ao governo brasileiro que reveja suas relações com a Coreia do Norte?

Tenho feito esforços em diversas frentes para construir confiança entre o Sul e o Norte e abrir uma era de unificação pacífica da Península Coreana. Mas a Coreia do Norte tem se recusado a responder aos nossos repetidos pedidos de diálogo e ignorado as preocupações da comunidade internacional sobre seu programa nuclear e na questão dos direitos humanos. O governo sul-coreano pretende estabelecer uma cooperação com o Brasil e toda a comunidade internacional para conseguir progresso nas relações intercoreanas e uma solução para o problema nuclear da Coreia do Norte. Nesse processo, o Brasil, que mantém um canal diplomático com o regime de Pyongyang, pode exercer um papel fundamental em persuadir os norte-coreanos a participar de um diálogo com boa fé. O governo sul-coreano continuará trabalhando com o Brasil para alcançar esse objetivo.

Existe espaço para a liderança atual do Norte em um processo de unificação ou a saída da família Kim do poder é condição essencial no processo?

Acima de tudo, é preciso diálogo e cooperação entre os lados para resolver o sofrimento pela divisão dos últimos 70 anos e abrir caminho para a unificação pacífica. A intenção de Seul é promover uma unificação gradual pela expansão dos canais de diálogo, mas responderemos duramente a qualquer provocação do Norte. No processo, também damos ênfase em recuperar um senso de identidade comum entre cidadãos do Sul e do Norte e aliviar as dificuldades da vida diária da população norte-coreana. Apesar das recusas sistemáticas de diálogo de Pyongyang, Seul quer trabalhar com outros países para ajudar o Norte a se tornar um integrante responsável da comunidade internacional. Minha esperança é que o regime norte-coreano cesse as ameaças e provocações e venha à mesa de diálogo de forma sincera.

As novas gerações de coreanos desejam a reunificação tanto quanto as mais antigas?

Este ano marca o 70.º aniversário da secessão da Coreia em Sul e Norte. Com a passagem do tempo e a chegada das novas gerações, é verdade que a dor da divisão tem lentamente esvanecido, assim como o nível de interesse na reunificação. Parte do motivo para isso é uma ênfase exagerada até agora nos custos da unificação. Ainda assim, dependendo de como você se prepara para isso, a unificação pode se tornar uma oportunidade para uma nova decolagem em vez de um fardo, promovendo um novo ímpeto de crescimento na Coreia - em toda a península, e na comunidade internacional como um todo. Felizmente, essa atitude está gradualmente se espalhando pela sociedade coreana, então atitudes positivas em relação à reunificação são muito mais correntes agora. O governo sul-coreano, por sua vez, está gradualmente se preparando para a reunificação por meio do Comitê de Preparação Para a Reunificação, com um foco particular em avançar na cooperação público-privada. Com a visão clara de que a reunificação, quando preparada adequadamente, será uma dádiva tanto para o Sul quanto para o Norte, o governo continuará trabalhando para construir consenso público.

Uma das primeiras atitudes do presidente chinês, Xi Jinping, quando assumiu o cargo foi se reunir com a senhora para discutir a desnuclearização da península. Isso aparenta uma falta de paciência dos líderes chineses com o regime norte-coreano?

Coreia do Sul e China têm trabalhado juntos como parceiros numa cooperação estratégica para as metas comuns de desnuclearização, paz e estabilidade na Península Coreana e no Nordeste Asiático. O avanço das relações sino-coreanas é crucial para resolver a questão nuclear, trazendo paz e estabilidade para a península e estabelecendo as bases para uma reunificação pacífica. A China conhece bem os problemas trazidos pelos frequentes testes nucleares e provocações da Coreia do Norte.

A Coreia do Sul está preocupada com os indícios de que o premiê japonês, Shinzo Abe, procura reescrever sua Constituição pacífica e fortalecer as capacidades militares do país?

O governo coreano mantém inalterada a visão de que o Japão precisa manter o espírito pacifista de sua Constituição e rumar numa direção que contribua para a paz e a estabilidade na região. Essa visão é compartilhada por toda a comunidade internacional. No que diz respeito a questões de história em particular, espero que o Japão, com base na correta interpretação da história, atue de maneira a demonstrar sinceridade e acalmar as preocupações de países vizinhos, além de desempenhar um papel responsável na região e perante a comunidade internacional

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