REUTERS/Nacho Doce
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Brasil pode ser afetado por alta na taxa de juros

Provavelmente, o governo Trump ignorará o País, mas protecionismo é uma ameaça

Cláudia Trevisan, Correspondente/Washington, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

O Brasil esteve ausente da campanha eleitoral americana e está bem distante do topo da lista de prioridades do presidente Donald Trump, o que pode ser um bom sinal após uma campanha marcada por ataques ao México e à China. Mas o País poderá sofrer consequência indiretas do provável aumento do protecionismo nos EUA e de uma eventual elevação da taxa de juros em razão da prometida expansão de investimentos em infraestrutura.

“Haverá uma negligência benevolente, em que o Brasil não despertará interesse, mas não será alvo de ações hostis”, avalia o brasilianista Matthew Taylor, professor da American University e membro do Council on Foreign Relations. Segundo ele, haverá um endurecimento dos Estados Unidos em relação a México, Cuba e Venezuela, o que poderá ampliar a distância ideológica entre Washington e a América Latina como um todo. “O relacionamento com a região será mais antagônico do que em anos recentes.”

O esperado agravamento da crise na Venezuela será uma das possíveis áreas de cooperação entre Washington e Brasília durante o governo Trump, avalia Taylor. “O Brasil desempenha um papel importante na Organização dos Estados Americanos (OEA) e na Unasul. Poderá atuar em conjunto com os EUA nessa questão.” 

Sérgio Amaral, embaixador do Brasil em Washington, afirmou que o País não deverá ser alvo de nenhum medida específica do novo governo americano, mas poderá sofrer as consequências negativas de uma eventual aceleração no ritmo de aumento da taxa de juros, que provocaria movimento semelhante no Brasil. Isso pode ocorrer se a expansão dos gastos em infraestrutura prometida por Trump tiver impacto inflacionário.

O Brasil não é associado aos principais problemas identificados por Trump durante a campanha, observou Amaral. O embaixador lembrou que a balança comercial bilateral é positiva para os EUA e investimentos de empresas brasileiras criam 80 mil empregos em solo americano.

Diretor executivo do Brazil Industries Coalition (BIC), entidade que representa os interesses do setor privado brasileiro nos EUA, Antonio Josino Meirelles vê risco de o Brasil ser afetado de maneira indireta pelo aumento do protecionismo no governo Trump. Essa mudança poderá se manifestar na adoção de um maior número de medidas de defesa comercial e na expansão da exigência de conteúdo local nas compras governamentais, o chamado Buy America.

Meirelles observa que haverá mudança na estratégia de integração comercial dos EUA, com preferência por acordos bilaterais em detrimento dos multilaterais. Também está claro o abandono do Parceria Transpacífico (TPP), o tratado que englobaria 40% do PIB global. 

Como o Brasil não participava do TPP, esse cenário abre a possibilidade de maior aproximação entre o País e os EUA na área comercial, diz Meirelles. Mas ele ressalta que ainda não há clareza sobre as prioridades da gestão Trump. Além disso, o Brasil precisa ser mais ativo para ampliar seu espaço dentro da política americana e da agenda comercial do país, observa.

Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas, avalia que haverá continuidade das políticas do governo Obama na relação bilateral. “Creio que pode haver oportunidade de ampliação de parcerias econômicas e comerciais.”

Peter Hakim, presidente emérito do Interamerican Dialogue é mais cético. “Não vejo como o Brasil poderá ser relevante e não espero que muita coisa seja feita antes da eleição do sucessor de (Michel) Temer.”

 

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