Brasil precisa apoiar luta dos sindicalistas iranianos

País terá a oportunidade, na segunda-feira, de usar o voto no Conselho de Direitos Humanos da ONU para pressionar por abertura no Irã

MANSOUR, OSANLOU, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2014 | 02h06

Como sindicalista iraniano, sempre busquei modelos que meu país pudesse seguir. Encontrar um equilíbrio entre direitos dos trabalhadores, desenvolvimento econômico, comércio internacional e programas sociais não é uma tarefa fácil.

Diante de desafios após sua transição democrática, em 1985, o Brasil surpreendeu o mundo positivamente. O País é hoje um protagonista global que se tornou um modelo a ser seguido por nações emergentes, como o Irã, em especial no que diz respeito a direitos trabalhistas e humanos.

Como líder trabalhista e chefe do Sindicato dos Motoristas de Ônibus de Teerã, estou ciente dos obstáculos enfrentados pelos trabalhadores do Irã. Para muitos, os salários são baixos, a segurança no local de trabalho é inexistente e programas sociais necessários estão sendo cortados.

No entanto, no Irã, a defesa dos direitos dos trabalhadores e dos pobres está fora de questão. Sei disso por experiência pessoal. Fiquei preso por mais de cinco anos. Fui torturado e ameaçado de morte e de estupro. O crime de que fui acusado: defender maiores salários para motoristas de ônibus.

Pode um país progredir quando seu governo não tolera os pontos de vista divergentes de seus próprios cidadãos? Ao contrário dos esforços de relações públicas do novo governo, a situação dos direitos humanos não melhorou desde que Hassan Rohani assumiu a presidência, há oito meses.

O novo governo estabeleceu um salário mínimo que cobre apenas um quarto do que uma família trabalhadora necessita para seu sustento. Em média, cinco trabalhadores morrem diariamente em obras de construção e fábricas inseguras.

Enquanto o Irã retrocedeu, o Brasil promoveu melhorias significativas ao longo da última década. Membro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que trabalhou na infância, promoveu reformas importantes e defendeu a dignidade dos operários. No entanto, os trabalhadores iranianos não precisam do Brasil somente como um modelo a ser seguido.

O Brasil deve também ser um aliado na busca pelos direitos humanos. Sem pressão internacional, o governo iraniano continuará a intimidar sem sofrer as consequências.

Lula, a presidente Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores tentaram fazer a coisa certa em seu país. Espero que eles defendam o mesmo para nós. Na segunda-feira, o Brasil terá o poder de influenciar uma votação no Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a situação no Irã. Um voto em favor da resolução dará ao Brasil a oportunidade de provar seu compromisso com os movimentos trabalhistas e homenagear as centenas de iranianos que lutam por seus direitos.

É ATIVISTA DOS DIREITOS

HUMANOS NO IRÃ

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