Brasil pressiona por intervenção da ONU na Palestina

Consciente de suas limitações nas órbitas militar e diplomática, o governo brasileiro decidiu apelar para que os líderes dos países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos e os que compõem a União Européia, apóiem uma intervenção militar coordenada pela ONU no conflito entre Israel e a Autoridade Palestina. O Brasil deixou claro que está disposto a enviar tropas à região, no contexto de um esforço de paz, desde que haja solicitação da ONU.O acirramento dos conflitos e a ameaça à vida do líder palestino, Yasser Arafat, levaram o presidente Fernando Henrique Cardoso a convocar uma reunião, nesta manhã, com o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, no Palácio da Alvorada. Conforme informou uma fonte da diplomacia ao Estado, nesse encontro, concluíram que a violência na região atingiu proporções que fogem ao controle, que a situação tornou-se "muito grave" e que o Brasil, apesar de suas limitações, não poderá permanecer alheio a esse cenário.De acordo com essa análise, a ação definitiva para o controle da violência em Israel e nos territórios palestinos depende do impulso das grandes potências às iniciativas que devem ser tomadas pela ONU. Com pouco poder de influenciar os líderes israelenses e palestinos, o Brasil se propõe a assumir uma posição de coadjuvante. Suas contribuições, portanto, se dariam no esforço do conjunto da comunidade internacional em favor da paz na região - seja o diplomático ou o militar.Lafer enfatizou que o envio de tropas brasileiras somente será examinado no âmbito da ONU, conforme manda a tradição do País. O Brasil participa de esforços militares das Nações Unidas na região desde 1956 e, uma vez solicitado, poderia integrar as tropas de paz. Entretanto, até o momento nenhum país se dispôs a pedir ao Conselho de Segurança que avalie essa alternativa. De acordo com a mesma fonte, tecnicamente, o Brasil poderia tomar essa iniciativa. Mas não o fará. O presidente preferiu instigar os Estados Unidos e os países da Europa a tomarem a dianteira, por meio de cartas e de contatos com chancelarias. "A contribuição do Brasil, neste momento, é no plano diplomático. Sem dúvida nenhuma, pela gravidade da situação, os que podem ter uma atuação maior na região são os EUA, pelo peso que têm na região, e os europeus, pelo mesmo motivo", afirmou Lafer, ao deixar o Palácio da Alvorada. "Depois de realizados os contatos com europeus e americanos, nós poderemos ter os melhores elementos para avaliar qual a contribuição que o Brasil pode dar. No momento que houver reabertura do diálogo, o Brasil terá aí a efetiva oportunidade de dar a sua contribuição."Em cada um desses contatos, entretanto, o governo brasileiro vai reforçar seu apoio à resolução da ONU sobre a questão, do último sábado, que determinou a retirada das tropas israelenses dos territórios palestinos. Mas também reitera sua defesa à criação de um Estado Palestino autônomo, democrático e economicamente viável, com a preservação do Estado de Israel, com fronteiras definidas. Da mesma forma, o Brasil defenderá que a participação de Arafat será indispensável "para que se encontre o caminho da paz na região". MSTDurante o encontro, FHC e Lafer também se mostraram preocupados com os brasileiros que se encontram na região de conflito. Conforme informou o ministro, são poucos cidadãos, mas todos poderão contar com a proteção da embaixada do Brasil em Tel-Aviv. O governo ainda se mostrou um tanto indignado pelo fato de o líder do MST, Mário Lill, ter entregue uma bandeira do movimento a Arafat anteontem.Lafer afirmou que preferia "que ele estivesse com a bandeira do Brasil". O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, foimais incisivo. "Com muita certeza, o líder Arafat não conhece as questões internas aqui e, portanto, deve ter feito um gesto de cortesia a uma pessoa que estava próxima, sem entender exatamente a repercussão que isso teria", afirmou.

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