Jamal Saidi/Reuters
Jamal Saidi/Reuters

Brasil pressionará Assad por reformas

Enviado do Itamaraty a Damasco diz que País ''não é ingênuo'', nem ''Poliana''

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA - Ao contrário dos sinais dados por governos árabes de promover um isolamento cada vez maior da Síria e mesmo diante do recrudescimento da violência, o Brasil desembarca hoje em Damasco com a intenção de manter o regime de Bashar Assad engajado nas reformas, permitir que os canais de diálogo não sejam fechados e até propor uma transferência de know-how sobre como lidar com manifestantes nas ruas.

 

 

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Em entrevista ao Estado por telefone de Beirute, antes de embarcar para Damasco como enviado do Itamaraty, o subsecretário do Ministério de Relações Exteriores, Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, garantiu que o Itamaraty "não é ingênuo" e discutirá a questão da repressão. "O Brasil não é Poliana", afirmou.

"Vamos manter um diálogo franco e firme. Não é aceitável usar a violência desproporcional contra manifestantes desarmados. Mas queremos também incentivar Assad a continuar com o dialogo que prometeu", afirmou o diplomata.

Ele admite que não há hoje uma coerência na ação de Damasco. "Não há uma sintonia entre as reformas que prometeu e a violência na rua. O governo diz que são forças irregulares armadas. Mas tanques nas cidades e tiros indiscriminados é algo inaceitável", declarou.

O Itamaraty também fará um alerta de que "há um limite" para a repressão, que a condena e não tolerará mais a violência.

A missão liderada pelo Brasil será integrada ainda por Índia e África do Sul. A viagem marca a estreia no Oriente Médio da diplomacia de Dilma Rousseff, que havia prometido colocar os direitos humanos no centro de sua política externa. Damasco não confirmou quem receberá a missão, mas não será Assad.

Ontem, Dilma insistiu que o isolamento da Síria não seria uma solução. "Somos uma área livre de armas nucleares que acredita no valor do diálogo. O uso da força deve ser sempre o último recurso e sua autorização deve se apoiar em consenso internacional, plural e representativo", discursou a presidente, durante almoço oferecido no Palácio do Itamaraty ao premiê do Canadá, Stephen Harper.

Para diplomatas americanos e europeus na ONU consultados pela reportagem, poucas são as esperanças em relação aos resultados da missão. Mas o encontro pode ser uma das últimas alternativas para Assad mostrar que está disposto a fazer as reformas políticas que prometeu. "A Síria deveria aproveitar essa missão para demonstrar que quer parar a violência. Mas não vemos o projeto com grandes expectativas", afirmou um diplomata europeu.

A missão não se reunirá com a oposição durante a viagem. Mas o Itamaraty admite que tem mantido contato com dissidentes e "mensageiros" que têm se aproximado do governo para lançar seus apelos. Em Brasília e em embaixadas em diversos países, foram realizadas reuniões com opositores de Assad.

Uma das possibilidades que o Brasil estuda é oferecer a Assad know-how sobre como lidar com manifestações, sem que resulte em mortes ou violações dos direitos humanos. Andrade Pinto, que foi embaixador do Brasil no Haiti, lembrou como as tropas nacionais foram confrontadas com essa situação em Porto Príncipe, sem vítimas.

Repressão. Ontem, Assad substituiu o ministro da Defesa, indicando o general Daoud Rajha para substituir Ali Habib - tido como "flexível" pelos opositores.

O governo sírio ainda aumentou a investida militar no coração da região muçulmana sunita da Síria. Pelo segundo dia consecutivo, tanques avançaram contra a cidade petrolífera de Deir al-Zor, no leste do país.

Uma testemunha afirmou à agência Reuters que, desde domingo, pelo menos 65 pessoas foram mortas na cidade. As informações não podem ser confirmadas de forma independente, já que o governo sírio proibiu o trabalho de jornalistas estrangeiros, o que torna difícil confirmar os fatos relatados pelos dois lados do conflito. Soldados invadiram ontem a cidade de Maarat al-Numan, no nordeste do país, impedindo a fuga da população. / COM REUTERS

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