Brasil quer evitar surpresas com reforma agrária de Morales

O assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse nesta quarta-feira, 07, que o Brasil não quer mais "ser surpreendido por ações abruptas, brutais e desastradas" da Bolívia, ao referir-se aos planos de La Paz para a reforma agrária. Segundo o assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo de Evo Morales deu garantias claras ao Brasil de que nenhuma medida da sua "revolução agrária" seria "brutal" para com os cidadãos brasileiros na Bolívia.A reforma deverá atingir, sobretudo, os cerca de 2.000 brasileiros que ocupam terras na região do Pando, a menos de 50 quilômetros da divisa com o Acre, no Brasil. Mas também poderá afetar os produtores de soja na região vizinha ao Mato Grosso do Sul. "O recado dado (ao governo Morales) é que queremos negociar todas as questões. Mas não queremos ser surpreendidos por ações abruptas, brutais e desastrosas de quem quer que seja", afirmou Garcia, logo depois de ver abortada a sua exposição sobre a crise bilateral na Comissão de Relações Exteriores do Senado pela ausência de senadores interessados no tema.Nesta quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores informou que apenas seis brasileiros foram notificados pelo governo boliviano por "possuir propriedades agrícolas ilegais" - e não 40, como foi divulgado por La Paz. A notificação, segundo a assessoria de Imprensa do Itamaraty, não implica a expulsão dos cidadãos dessas terras nem do país vizinho, mas apenas o início de um procedimento judicial, que poderá ou não culminar com a devolução dessas propriedades ao Estado boliviano. O caso está sendo acompanhado pela embaixada do Brasil em La Paz.Segundo Garcia, o governo brasileiro não se mostra indiferente aos interesses da Petrobras na Bolívia. Além das negociações em andamento entre a companhia brasileira e a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB), prossegue o diálogo entre os ministros Silas Rondeau, de Minas e Energia, e de Hidrocarbonetos, Andrés Solíz Rada. A rigor, a revisão do contrato entre a Petrobras e o governo boliviano - inclusive o reajuste no preço do insumo - deverá ser concluído até o próximo dia 1º de outubro.Para Garcia, o último "episódio tenso" nas relações entre o Brasil e a Bolívia, desde o anúncio do decreto de nacionalização do setor de gás e a ocupação militar das plantas da Petrobras no País se deu em Viena, em meados de maio. Porém, já teria sido superado.Dia 11, em entrevista à imprensa internacional previamente organizada, Morales acusou a Petrobras de sonegar impostos e de contrabandear gás. No dia seguinte, recuou e culpou a imprensa. Dia 13, ao receber Morales no hotel em que estava hospedado, em Viena, o presidente Lula deixou claro que estaria disposto a manter o canal aberto para uma "negociação franca". Porém, destacou que o governo brasileiro não discutiria por meio da imprensa nem fomentaria uma "guerra verbal".

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