Brasil quer status de ''mediador global''

Itamaraty vê Irã e processo de paz como 'trampolins' para ampliar influência do País

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Consolidar o Brasil como novo mediador de conflitos que atormentam o mundo há décadas tornou-se uma obsessão da diplomacia presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, estimulada pela cúpula do Itamaraty.

Esse objetivo para o último ano de governo Lula, que está diretamente ligado à ambição por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, encontrou seu trampolim em duas crises distantes da zona de influência brasileira: o Irã e o conflito entre israelenses e palestinos.

Nas últimas semanas, enquanto o tom das declarações oficiais em Teerã subia e EUA, Europa e Rússia adotavam posições favoráveis a novas sanções ao Irã, o chanceler Celso Amorim defendia o diálogo. Amorim repetiu que o acordo sobre a troca de urânio iraniano por combustível nuclear é o único meio de criar confiança mútua entre o Irã e o Ocidente. Por fim, anunciou que a visita de Lula a Teerã ocorrerá em 15 de maio.

A iniciativa brasileira está ancorada na certeza de Lula de que dispõe da confiança dos dois lados para agir em Teerã. Em especial, dos EUA e da França.

O Itamaraty lista outros predicados: o Brasil não foi potência imperialista no Oriente Médio, como Grã-Bretanha e França, traz na sua Constituição o compromisso de não desenvolver armas atômicas e é um ator suficientemente maduro para driblar obstáculos e estimular um acordo.

A espinhosa agenda do Oriente Médio destoa das causas que o Planalto e o Itamaraty abraçaram até agora. Em sete anos de governo, o presidente Lula levantou cinco grandes bandeiras no plano internacional, em ofensivas diplomáticas que tinham como objetivo alçar o Brasil - e seu mandatário - como um novo e indispensável ator no mundo.

A bandeira do combate à fome, porém, mantém-se hoje em uma espécie de sótão entre os temas de Lula em eventos no exterior.

O cenário no Oriente Médio - a questão nuclear envolvendo o Irã e o conflito entre israelenses e palestinos - é visto pelo Itamaraty como o último grande ato da diplomacia de Lula, cujo sucesso pode consolidar a inserção do Brasil entre as potências mundiais.

Em entrevista ao Estado, no dia 18, o próprio Lula expôs a dosagem de autoestima que levou seu governo a envolver-se em um conflito no qual nem mesmo a França vislumbra uma saída pacífica.

"Nós estamos mudando a visão dogmática que as pessoas tinham do mundo. Eu descobri uma coisa sagrada: que ninguém é melhor que um presidente do Brasil", afirmou. "O Brasil virou importante."

Direito. Para Lula, a empreitada pode ser resolvida com duas palavras - "muita interlocução" - e nada tem a ver com pretensões a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. "A cadeira não depende do comportamento do Brasil. A cadeira no Conselho de Segurança é, na verdade, um direito que este país e o mundo adquiriram", afirmou o presidente.

Como enfatizou Lula, sua receita sindical para a solução de conflitos internacionais "serve pra todo mundo". Na entrevista, Lula deu sinais de sua contrariedade ao ouvir a negativa do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, à sua proposta de conversar com o Hamas. Ao insistir na oferta de "pôr o guizo no pescoço do gato", indicou que avançará nessa linha.

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