Brasil recebe refugiados palestinos

Após difícil negociação, 1.º grupo do total de 117 chega esta semana

Jamil Chade, AMÃ, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2017 | 00h00

O Brasil vai receber nos próximos dias o primeiro grupo de refugiados palestinos que viviam no Iraque. Mas o processo para transferi-los para São Paulo e Porto Alegre está sendo permeado por pressões políticas e uma complexa negociação diplomática entre a ONU, países árabes e o Brasil, entre outras nações. Até as autoridades palestinas tentaram evitar que refugiados fossem enviados ao Brasil."Essas pessoas se tornaram bolas que eram jogadas de um lado para outro, dependendo dos interesses políticos", afirmou Imran Riza, principal representante do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) em Amã. A embaixada brasileira na Jordânia também aponta para a sensibilidade do assunto.O plano da ONU é embarcar para o País já nesta semana um primeiro grupo de cerca de 40 refugiados que, antes de ser trazidos para a Jordânia, viviam em Bagdá. Eles deixarão para trás quatro anos de sofrimento em barracas no deserto perto da fronteira entre Jordânia e Iraque. Até outubro, o Brasil receberá 117 refugiados. Para a ONU, os palestinos que estavam em Bagdá acabaram sendo uma das principais vítimas da guerra no Iraque.Hoje, não podem voltar a Bagdá, não têm um Estado próprio, não são aceitos nos países árabes e ainda são recusados em muitas nações ricas. Nos anos 80, os palestinos foram recebidos como refugiados pelo ditador Saddam Hussein em Bagdá como sinal da aliança entre o regime iraquiano e o líder palestino Yasser Arafat. Saddam fez questão de distribuir apartamentos, desalojando seus inimigos xiitas. Em 2003, ano da queda do regime de Saddam, 25 mil palestinos viviam em Bagdá.Mas, identificados como protegidos de Saddam, os palestinos, muçulmanos sunitas, foram perseguidos pelas milícias xiitas. Como poucos países aceitaram receber esses palestinos como refugiados, um campo perto da vila de Ruwaishid, na Jordânia, foi a única solução para muitos.Com a Jordânia sobrecarregada com mais de 1,5 milhão de refugiados palestinos que chegaram desde 1948 e agora com 700 mil iraquianos, a idéia de Amã era de que o campo seria fechado em um ano e existiria apenas até que os palestinos encontrassem um destino. Mas a realidade foi outra. A ONU tentou convencer uma série de países a recebê-los e, na maioria dos casos, não conseguiu autorização. Até mesmo o governo de Israel foi consultado.Um dos poucos países que aceitaram foi o Chile. Mas a iniciativa de enviar os refugiados a um continente distante não agradou a Autoridade Palestina (AP). Segundo a funcionária do Acnur Anne-Marie Deutschlander, os representantes palestinos deixaram claro que não estavam satisfeitos com a solução da ONU. A recusa foi explicada pelo temor de que, uma vez vivendo na América do Sul, a possibilidade de voltarem às suas terras seja mínima.Para a AP, tais transferências podem minar a causa palestina. Um dos instrumentos de pressão pela criação de um Estado palestino é a existência de milhões de palestinos em campos de refugiados na região. "O temor era de que outros refugiados pudessem buscar solução parecida", afirmou Anne-Marie. Ela conta que, em Santiago do Chile, a comunidade de 300 mil palestinos também não viu com bons olhos a decisão.A alternativa de negociar com o Brasil surgiu em abril. Mais uma vez, porém, a AP manifestou reservas. Mas os aspectos humanos superaram a questão política. "Explicamos que não poderíamos deixar aquelas pessoas para sempre num campo de refugiados", afirmou Anne-Marie.O tema é considerado tão delicado que a Embaixada do Brasil em Amã foi orientada a dar a menor visibilidade possível ao assunto. Dentro do governo brasileiro, a iniciativa também causou certa controvérsia. Nos últimos anos, o presidente Lula vem ensaiando uma aproximação com os países árabes e a esperança de Brasília é que a iniciativa tenha um impacto político que reforce a posição do País no cenário do Oriente Médio. Mas alguns membros do governo alertaram que a idéia de receber os palestinos não seria consistente com a oposição do Brasil à guerra do Iraque. "O Brasil foi contra a guerra. Mas agora ajuda a pagar pelos efeitos dela", afirmou um diplomata em Brasília que pediu para não ser identificado.Para a ONU, seja qual for o motivo, a realidade é que a decisão do Brasil trará uma solução para a questão dos refugiados palestinos do Iraque. "E o direito de retorno às suas terras não desaparece por irem para o Brasil", afirmou Anne-Marie. Nos corredores da ONU em Genebra e Amã, a esperança é que a iniciativa sirva de exemplo para outros países.

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