Brasil se opõe a ajuda militar à retaliação dos EUA

O governo brasileiro vai se opor ao apoio militar dos países da Organização dos Estados Americanos (OEA) aos Estados Unidos, em caso de conflito direto desse país com o Afeganistão. Também estará pronto a vetar qualquer sugestão que possa ser apresentada na reunião do Conselho Permanente da OEA, marcada para amanhã em Washington, em favor de ação americana de combate a possíveis focos terroristas localizados nos territórios dos países da organização. Com essa decisão, o Brasil pretende deixar clara sua disposição de colaborar com os Estados Unidos em um plano mais diplomático que militar, conforme informou uma fonte do Itamaraty. Ou seja, poderá até mesmo apoiar o ataque americano ao Afeganistão, mas nunca participar dele.Também manterá salvaguardas contra as iniciativas americanas de enviar tropas aos países latino-americanos para o combate a atividades ilícitas, como aconteceu no ano passado com a Colômbia. A posição tradicional do governo será mais uma vez repetida: questões internas são da competência dos próprios países. Para o governo, seu sinal de solidariedade foi apresentado e notado pelos Estados Unidos. Trata-se da iniciativa de pedir ao Conselho Permanente da OEA a convocação dos países membros do Órgão de Consulta do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), que prevê que um ataque contra um dos países da organização significa uma agressão a todos os seus membros. O conselho ainda deverá avaliar a proposta de realização de uma reunião de chanceleres dos 34 países da organização - todos das três Américas, com exceção de Cuba. A expectativa do Itamaraty é de que ambos os encontros sejam realizados ainda nesta semana. Para a reunião de chanceleres, diplomatas brasileiros esperam que a OEA feche uma posição político-estratégica contra o terrorismo e os Estados que apóiam essas ações. Possivelmente, até mesmo poderão deixar claro o apoio diplomático ao cumprimento da ameaça dos Estados Unidos de atacar ao Afeganistão, caso o terrorista Osama bin Laden não seja entregue no prazo estipulado. Da reunião do Órgão de Consultas do Tiar, o Brasil espera que seja aprovado o compromisso de seus sócios de combater, em seus próprios territórios, grupos que dão suporte as atividades terroristas. Eventualmente, poderá ainda ser aprovada alguma das iniciativas recomendadas no próprio texto do tratado, se for comprovado pelos Estados Unidos que o Afeganistão é responsável indireto ou cúmplice dos atentados da semana passada. O próprio texto do Tiar, assinado por 22 dos 34 países da OEA, garante ao Brasil a defesa dessas posições. Entre as medidas que podem ser aprovadas pelo Órgão de Consulta contra o agressor estão a retirada de chefes de missões, o rompimento de relações diplomáticas e consulares, a interrupção das relações econômicas e de comunicações e também o emprego da força militar. Entretanto, o mesmo texto adverte que essas iniciativas só deverão empregadas se contarem com apoio de um terço dos países que compõem o Órgão de Consultas. E, mesmo assim, a única medida que nenhum de seus sócios estará obrigado a adotar é o emprego da força militar sem o seu consentimento. O Brasil considera que essa cláusula nem precisará ser invocada durante a reunião, porque os Estados Unidos bem sabem que não há nenhuma potência militar na América Latina e no Caribe, e que nenhum desses países conta com orçamento suficiente para investir em uma ação militar.

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