Brasil tem plano para tirar cidadãos do Líbano

Brasília prevê 5 cenários para saída de 10 mil a 15 mil brasileiros, dependendo da evolução da guerra na vizinha Síria

Lourival Sant’Anna, Enviado especial, Beirute

04 de setembro de 2013 | 22h59

O Brasil tem um plano de retirada de emergência de seus 10 mil a 15 mil cidadãos do Líbano. Ele inclui cinco cenários, que indicam a fluidez da situação na região, e a variedade de formas como a guerra na Síria pode envolver o Líbano. O aeroporto de Beirute é controlado pelo grupo xiita Hezbollah, diretamente envolvido na guerra civil síria, e os três principais portos libaneses estão sujeitos a contágio pelo aspecto sectário do conflito.

O primeiro cenário é o mais benigno: os cidadãos brasileiros conseguem chegar, de diferentes partes do Líbano, ao aeroporto de Beirute. Dali, embarcam em aviões da Força Aérea Brasileira ou fretados para o Brasil. A passagem é só de ida. Quem quiser voltar para o Líbano depois, terá de fazê-lo por conta própria. Com a possibilidade de um ataque americano e os exercícios com mísseis realizados por Israel e EUA, as companhias aéreas estão cancelando os voos noturnos.

No segundo cenário, o espaço aéreo estaria fechado ou o aeroporto teria sido atacado ou ficaria inacessível. Os brasileiros embarcariam em um ou mais navios fretados, ao custo de cerca de US$ 200 mil cada - conforme orçamentos feitos pelo consulado com armadores do Chipre, Grécia e Turquia. Nesse e nos outros casos em que os brasileiros forem de navio para países próximos, podem, dependendo dos recursos aprovados pelo governo, prosseguir em aviões fretados ou da FAB para o Brasil.

Se Beirute ficar inacessível, ou insegura demais, por atentados a bomba - que já começaram a acontecer -, a opção seria levar os brasileiros por terra até o segundo maior porto do Líbano, em Trípoli, 70 quilômetros ao norte de Beirute. De lá, eles poderiam embarcar em navios que fazem linhas regulares até o porto de Iskenderun, na Turquia.

Trípoli, no entanto, já está envolvida no conflito entre a maioria sunita e a minoria alauita. Se a situação lá se deteriorar, um quarto cenário seria o porto de Sidon, o terceiro do país, 40 km ao sul de Beirute. No entanto, lá também já existe um foco de tensão, criado pelo xeque radical sunita Ahmed Assir, que lançou campanha contra o Hezbollah.

Se não houver segurança em Sidon também, a última opção é o porto de Tiro, 80 km ao sul de Beirute. Esse já é um porto menor, que não recebe navios grandes. Os brasileiros teriam de embarcar em ferry boats para Israel - se nesse estágio o país não estiver envolvido no conflito.

O plano tem base na experiência de 2006, quando Israel bombardeou posições do Hezbollah no Líbano, e 3 mil brasileiros foram levados por terra para Antália, na Turquia, e - ironicamente - Damasco, de onde embarcaram em aviões. Resulta de consultas entre o consulado em Beirute, militares brasileiros da Missão das Nações Unidas no Líbano e representantes da comunidade.

O Brasil tem uma fragata na costa libanesa, mas ela está a serviço da ONU e não pode ser empregada para resgate de civis. Todas as soluções dependem não só do cenário, mas também da aprovação da presidente Dilma Rousseff, já que envolvem segurança e gastos.

Para entender. Os brasileiros do Líbano têm diferentes graus de familiaridade com o Brasil. Pelo menos 70% não falam português. A maioria nunca esteve no País. São descendentes de libaneses e sírios que moraram no Brasil e voltaram em algum momento dos diferentes ciclos de migração. Eles têm direito ao passaporte brasileiro, e o valorizam, porque dá acesso, por exemplo, à União Europeia sem visto, ao contrário do libanês. Mas muitos ainda não o fizeram, até pelo seu custo: 160 mil libras libanesas (US$ 107). No Líbano, 80% dos brasileiros vivem no Vale do Bekaa. Muitos pertencem a famílias de agricultores e o preço do passaporte pesa. O consulado teme uma enxurrada de pedidos do documento no caso de uma emergência no Líbano.

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