Brasil tentava estreitar laços com Síria, revelam e-mails

Documentos divulgados pelo WikiLeaks indicam que o governo queria área de livre comércio entre Assad e Mercosul

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / BARCELONA, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h08

A guerra civil na Síria interrompeu de uma forma brusca uma ofensiva diplomática entre o Brasil e o presidente Bashar Assad para estreitar relações, numa estratégia que incluía até mesmo o estabelecimento de uma zona de livre comércio entre a Síria e o Mercosul. Isso é o que revelam dezenas de e-mails enviados por autoridades sírias e brasileiras.

Os documentos fazem parte dos 2 milhões de e-mails que o grupo WikiLeaks conseguiu reunir envolvendo a Síria e suas relações com dezenas de países pelo mundo. Os e-mails são enviados pelo gabinete de Assad, por diversos ministérios, embaixadas, consulados e pessoas ligadas ao governo.

O Estado teve acesso aos e-mails referentes ao Brasil e que escancaram uma relação intensa entre Brasília e Damasco nos últimos meses de 2010. Em fevereiro de 2011, começaria o confronto entre rebeldes e o governo Assad, que já deixou mais de 500 mil refugiados. Nos primeiros meses do conflito o governo de Dilma Rousseff adotou um tom de cautela, absteve-se em algumas votações na ONU e chegou a enviar missões para dialogar com Assad.

Num dos documentos, de 16 de agosto de 2010, enviado pela chancelaria síria, um plano completo da aproximação é desenhado. Além de acordos no setor de educação, tributação e mesmo no setor de saúde, o projeto cita explicitamente a abertura de negociações para o "estabelecimento de uma zona de livre comércio entre a Síria e o Mercosul". Hoje, o Mercosul tem um acordo semelhante.

A primeira etapa nesse processo seria "a elaboração de um estudo para avaliar o impacto, negativo e positivo, de um acordo comercial". O processo seria seguido por viagens de ministros de Economia e do Comércio de ambos os lados e uma tentativa de fechar um acordo já em 2011, o que não ocorreu.

Dados oficiais do comércio apontam que, de fato, a relação vinha ganhando uma nova dimensão. Em 2010, as exportações nacionais para a Síria somaram US$ 540 milhões, um recorde. Mas desde o início do conflito, em fevereiro de 2011, a situação mudou radicalmente. As exportações brasileiras para a Síria sofreram uma redução de 33% em 2011 e 76% em 2012. As sanções impostas contra as autoridades sírias e, acima de tudo, o impacto do conflito na economia local, acabaram reduzindo o volume de vendas no país.

Em 2010, parte dessa aproximação tinha uma relação direta com a visita que Assad tinha feito ao Brasil. Os e-mails de diplomatas sírios revelam a importância que Damasco deu à viagem, com uma programação para a primeira-dama e projetos em São Paulo com a comunidade síria. Os e-mails também revelam como Assad pediu o envio do curriculum de algumas das personalidades brasileiras que encontraria, como a do senador José Sarney.

Num documento enviado em 2 de junho de 2010 à Embaixada da Síria no Brasil e à chancelaria em Damasco, os sírios apresentam o perfil da então candidata Dilma Rousseff. Destacando que ela foi uma das pessoas fundamentais no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o perfil elaborado pela Síria, que não reconhece Israel, ainda apontava: "há quem diga que (os Rousseffs) são de origem judaica e com ancestrais judeus na Europa".

Em outro e-mail, membros do protocolo do Itamaraty explicam aos sírios como deveria ser organizado o desembarque do presidente Assad no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Além de colocar à disposição dez carros blindados com motoristas, os organizadores da chegada de Assad alertam para o "trânsito de São Paulo" e o fato de que não teriam como "fechar ou bloquear ruas" para a passagem do cortejo.

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