Brasil tentou abafar caso de espião da Abin

Inteligência se dividiu sobre afastamento de agente que teria passado informações aos EUA

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2013 | 02h04

BRASÍLIA - A operação abafa, que culminou na orientação da direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para que o agente 008997 pedisse aposentadoria, dividiu o comando do órgão. O diretor-geral da Abin, Wilson Trezza, e mais um dos diretores, defenderam que não houvesse sindicância e o caso fosse encerrado com o afastamento do servidor, apesar das imagens, fotos e gravações que a contrainteligência tinha obtido.

No entanto, outros dois integrantes da cúpula da Abin queriam a sindicância e um processo administrativo. O assunto foi levado aos superiores, que concordaram com a a aposentadoria. A decisão foi chancelada pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general José Elito, a quem a Abin está subordinada.

O episódio preocupou o Palácio do Planalto, porque ocorreu no momento que a presidente Dilma Rousseff cobra do governo dos EUA explicações sobre espionagem no Brasil. O problema é que, enquanto Dilma cobra explicações, integrantes da própria Abin teriam agido de forma irregular e sem punição, com a direção do órgão jogando para "debaixo do tapete" informações "preciosas" por parte de agentes que fizeram o rastreamento.

Mesmo com as evidências de conduta irregular, o agente 008997 foi "aposentado voluntariamente com proventos integrais", em 17 de dezembro de 2012. O ex-servidor, então, voltou a morar em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde montou, segundo informações obtidas pelo Estado, um escritório que funciona como uma pequena Abin (uma "Abinzinha", como descrevem os servidores da Abin).

A desconfiança da contrainteligência da Abin sobre o agente brasileiro já existia quando ele estava na subchefia da unidade de Foz do Iguaçu, posto que ocupava até ser nomeado, em 28 de julho de 2011 para a Superintendência do Amazonas. A investigação foi aprofundada quando ele chegou a Manaus e tentou acessar - sem necessidade - documentos do escritório de Foz.

Até aí, a operação era de rotina, já que a região de Foz do Iguaçu é o paraíso dos agentes de inteligência, por ser fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai. Na ocasião, nada justificava o fato de o agente continuar mantendo ligação com os americanos e tentar acessar documentos indevidos.

Há gravações do agente brasileiro em jantar com americanos, além de fotos e gravações da conversa ocorrida em agosto de 2012, em Curitiba. Os agentes brasileiros ficaram revoltados com a tentativa de abafar o caso, pois parte de uma lista de informantes daqui pode ter sido repassada para os americanos, deixando toda a rede comprometida.

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