Brasil terá de aumentar pagamento à ONU

A recusa dos Estados Unidos de contribuírem financeiramente para as Nações Unidas (ONU) começa a ter repercussões negativas para o Brasil. O País terá de aumentar seu pagamento à ONU em 62,4% em apenas um ano, o que representará um gasto aos cofres públicos de mais de R$ 120 milhões. Caso o governo brasileiro não consiga os recursos, poderá até perder o direito de voto na ONU e nas agências especializadas. O aumento da contribuição brasileira é o resultado de uma profunda crise financeira que toma conta da ONU. Para complicar a situação, os países desenvolvidos, liderados pelos Estados Unidos, querem repartir a conta da manutenção da paz no mundo, que em 2000 foi de US$ 2,4 bilhões. "O orçamento da ONU é muitas vezes inferior a qualquer ministério nos Estados Unidos. Somente com a saúde, Washington gasta US$ 429 bilhões por ano", afirma ao Estado um diplomata africano. Para tentar resolver o impasse, a ONU estipulou, em dezembro, uma nova lista das contribuições baseada no PIB e a renda per capita dos países. "Em 2000, a contribuição brasileira era de 1,7%. Até 2003, a proporção passará a ser de 2,39%", explica um diplomata brasileiro. Já os Estados Unidos, que possuem poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, garantiram uma diminuição de 12% em seus pagamentos. Com isso, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, esperava que Washington quitasse sua dívida. Há duas semanas, porém, o Congresso americano vetou o envio de US$ 244 milhões após a exclusão dos EUA da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Para muitos países, a decisão do Congresso é uma quebra do compromisso com as Nações Unidas, mas os americanos parecem não estar satisfeitos. Washington quer agora que a nova divisão seja adotada por todos os organismos especializados da ONU, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) o que não estava previsto no acordo de dezembro. Se isso ocorrer, caberá aos demais países sustentar os novos programas dos organismos. As primeiras crises já começaram a aparecer. Na sexta-feira, a Assembléia Mundial da Saúde não conseguiu chegar a um entendimento sobre o orçamento da OMS. O governo brasileiro estipula que, se a exigência dos Estados Unidos prevalecer, o País terá que enviar mais US$ 6 milhões para a OMS, dinheiro que viria do próprio Ministério da Saúde. O problema é que a falta de pagamento dessa cota representará a perda do direito de voto. Isso já chegou a ocorrer na Organização Mundial de Propriedade Intelectual, exatamente no momento em que o País se encontra em uma disputa sobre patentes com os Estados Unidos. Mas não são os Estados Unidos que estão ganhando com essa nova divisão das despesas. Dos 189 países da ONU, 49 tiveram suas participações financeiras reduzidas. Ao contrário do que poderia se imaginar, esse bloco não é composto apenas por países pobres, mas também pela Itália, Canadá, Japão e Alemanha, que reduziram suas contribuições em até 6%. Para compensar essa diminuição, 79 países tiveram que aumentar suas cotas. O caso mais curioso é o do Iraque que, mesmo sob o embargo há dez anos da ONU, terá que aumentar suas contribuições em 325%.

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