Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS
Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS

Brasil tinha tudo para ser uma das grandes estrelas do encontro patrocinado por Biden; leia análise

Na cúpula do clima, País poderia ter aproveitando interesse dos Estados Unidos no tema para eventualmente extrair concessões e investimentos de países desenvolvidos 

Carlos Poggio*, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2021 | 05h00

Joe Biden não escondeu de ninguém quais seriam suas prioridades no campo da política internacional: lidar com a ascensão da China e atacar a questão das mudanças climáticas de frente. Ele falou várias vezes sobre esses temas ao longo da campanha e seu secretário de Estado fez um discurso de posse em que esses temas foram tratados de forma bastante direta. 

Ele criou um cargo específico para o tema do meio ambiente e indicou seu amigo John Kerry, que já foi candidato à presidência pelo Partido Democrata e secretário de Estado. Seu plano trilionário de infraestrutura enviado ao Congresso tem como objetivos centrais a descarbonização da economia americana ao mesmo tempo em que busca deixar os Estados Unidos mais bem posicionados para competir com os chineses: quando Biden anunciou o plano, ele mencionou a China seis vezes.

De fato, as ações da administração Biden em seus primeiros meses de governo têm deixado bastante evidentes essas prioridades. A primeira viagem internacional do secretário de Estado, Antony Blinken, foi um tour por países asiáticos que culminou com um encontro bastante contencioso com autoridades chinesas no Alasca. O primeiro chefe de governo a visitar Biden na Casa Branca foi o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga. Essas ações indicam de maneira inequívoca que, assim como Trump, Biden preocupa-se com os impactos da ascensão chinesa nos Estados Unidos. 

Porém, ao contrário de Trump, Biden tem apostado em uma estratégia multilateral, de aproximação com aliados tradicionais. Seu antecessor, partindo de uma mentalidade de agente imobiliário iorquino, deixou o Tratado Transpacífico, colocou tarifas contra o Japão, e cobrou que os japoneses pagassem mais pelas tropas americanas no país. 

Biden, ao contrário, enxerga o Japão como um aliado estratégico fundamental na disputa geopolítica com os chineses. É essa mesma abordagem multilateral de aproximação com aliados tradicionais que Biden aplica no tema das mudanças climáticas, que era praticamente ignorado por Trump, mas que agora volta com força ao centro da agenda dos Estados Unidos e, portanto, do mundo.

Essa breve contextualização das prioridades estratégicas da administração Biden nos permite compreender melhor o contexto em que ocorreu o encontro de líderes sobre questões climáticas patrocinado pelo presidente americano, e o porquê desse encontro ter sido uma grande oportunidade desperdiçada pelo Brasil. Em linhas gerais, Biden tinha dois objetivos com esse encontro de chefes de governo. 

O primeiro, foi sinalizar para a comunidade internacional que os Estados Unidos consideram o tema uma prioridade na sua política externa. Dessa forma, Biden buscava recolocar o tema das mudanças climáticas no centro da agenda internacional. O segundo objetivo foi testar as águas para a 26ª Conferência das Partes sobre a Mudança Climática em Glasgow, que deve ocorrer em novembro desse ano e que já é apontada como a mais importante reunião do tipo nos últimos anos.

Nesse sentido, dado o histórico brasileiro de defesa do meio ambiente, tendo sido o país sede de uma das mais importantes reuniões internacionais sobre o tema em 1992, o Brasil teria tudo para ser uma das grandes estrelas do encontro patrocinado por Biden, aproveitando o interesse dos Estados Unidos no tema para eventualmente extrair concessões e investimentos de países desenvolvidos. 

Porém, o que vimos foi mais uma evidência do estrago causado pela política externa conduzida pelo ex-chanceler Ernesto Araujo que, em depoimento no Congresso Nacional, demonstrou contrariedade com tema do aquecimento global - que chamava de “ideologia da mudança climática” - chegando a afirmar que uma das razões para o aumento das temperaturas globais seria o fato de os termômetros serem colocados próximos ao asfalto. 

Araujo, cuja condução ao cargo deveu-se a um artigo em que ele argumentava que Trump seria o salvador do Ocidente, conduziu uma política externa extremamente amadora apostando no relacionamento pessoal com o ex-presidente dos Estados Unidos, de personalidade sabidamente volátil, ao invés de construir relações de Estado mais duradouras. A derrota de Trump desnudou o equívoco dessa estratégia. 

Junto com isso, Araujo conseguiu a proeza de antagonizar os principais parceiros comerciais do Brasil, notadamente China e Argentina. Com referências abstratas a uma propalada defesa do conceito de “liberdade” e de luta contra o “globalismo”, a diplomacia araujista orgulhava-se de ter transformado o Brasil em pária internacional. Sem dúvida, nesse aspecto ele foi bem sucedido.

Foram nessas condições que o presidente Jair Bolsonaro fez sua estreia diante de Biden na quinta-feira. Quer dizer, não exatamente diante de Biden, dado que o presidente dos Estados Unidos não estava na sala enquanto seu colega brasileiro se esforçava para ler um texto em que renegava todo o histórico da política externa araujista. 

Basta comparar com o discurso proferido por Bolsonaro no ano passado na ONU, em que descrevia o Brasil como “vítima de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia” que seria “escorada em interesses escusos”, para identificar a mudança de tom. 

Conferências diplomáticas como essa servem em grande medida para estabelecer narrativas mais do que conduzir negociações concretas, o que normalmente ocorre nos bastidores. E a narrativa que Bolsonaro tentou estabelecer nesse encontro contradiz frontalmente as ações e palavras de seu ex-ministro das Relações Exteriores e de seu atual ministro do Meio Ambiente. É, portanto, compreensível que a administração Biden receba com certo ceticismo o discurso do presidente brasileiro. Pragmáticos que são, os americanos celebraram a mudança de tom, mas devem aguardar ações concretas. 

*DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS ESPECIALISTA EM EUA E PROFESSOR NA FAAP

 

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