REUTERS/Ueslei Marcelino
REUTERS/Ueslei Marcelino

Brasil vê vantagem comercial em suspensão da Venezuela do Mercosul

Governo avalia que bloco regional poderá se ocupar de interesses mais importantes, como a negociação de um acordo comercial com a União Europeia

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2016 | 05h00

A suspensão da Venezuela do Mercosul abre espaço para que o ministro das Relações Exteriores, José Serra, coloque em prática seu antigo projeto de acelerar os acordos comerciais do bloco econômico e, com isso, aumentar as exportações. Na diplomacia brasileira, a avaliação é que a Venezuela representou, nos últimos meses, um foco de distração que vinha monopolizando as energias dos sócios. 

“Agora, o Mercosul vai poder cuidar do Mercosul e não da Venezuela”, comentou uma fonte de alto escalão do governo. Há, também, repercussões do ponto de vista político. A decisão do Mercosul aumenta o isolamento da Venezuela na região e reforça os argumentos da oposição naquele país. “Já tinha sido anunciado (que a Venezuela seria suspensa) se não cumprisse certos requisitos, e foi”, afirmou o chanceler brasileiro nesta sexta-feira, durante evento em São Paulo. Segundo ele, a Venezuela “aporrinha” o Mercosul, mas não chega ser um entrave.

O custo do isolamento foi agravado pelo próprio governo de Nicolás Maduro, que protestou contra a suspensão e, com isso, chamou a atenção da população para o caso. Mas é um impacto político moderado, segundo se avalia na diplomacia brasileira. Há dúvidas sobre o grau de sensibilidade de Maduro e sua equipe a esse fato. Da mesma forma, as consequências sobre os negócios venezuelanos não devem ser sentidas, pois o Mercosul não era um pilar da atividade naquele país. O grau de desarticulação da economia local obscurece qualquer impacto na redução do comércio com os vizinhos.

Projeção. O principal saldo para o Brasil, segundo se avalia no Itamaraty, é mesmo no campo econômico. Serra assumiu a pasta com a missão de dinamizar o comércio exterior brasileiro, mas a execução do projeto ficou prejudicada pelo fato de o início do governo de Michel Temer haver coincidido com o que seria o período de presidência temporária da Venezuela no Mercosul. Os debates, primeiro sobre a presidência do bloco e depois sobre a suspensão, deixaram a agenda econômica em segundo plano.

Agora, a prioridade do ministro é remover barreiras ao comércio dentro do bloco. “Ele quer tornar o comércio mais fluido e menos imperfeito possível”, disse um integrante da equipe. O Mercosul poderá discutir uma série de medidas para facilitar o comércio entre os países-membros. A avaliação é que as transações ainda enfrentam entraves – embora, no caso da Argentina, eles estejam hoje bem menores do que eram no governo de Cristina Kirchner.

Há também a ambição de avançar em acordos comerciais como o que está em negociação com a União Europeia (UE). Os diplomatas reconhecem que o atual quadro mundial não é dos mais favoráveis a esse tipo de iniciativa. A vitória do republicano Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos só reforça essa impressão.

Diálogo. As negociações com os europeus, no entanto, estão em curso e há flexibilidade para avançar, segundo se avalia no governo brasileiro. O entendimento é que o Mercosul não é empecilho, pois as normas do bloco já permitem que se fechem acordos que afetem os países de forma diferenciada. A única condição é que a negociação ocorra em conjunto.

Os quatro sócios (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), por exemplo, podem fechar um acordo com os europeus em que a abertura comercial seja feita com cronogramas diferentes e para produtos diferentes. Essa flexibilidade existe e seu uso só depende de vontade política, disse uma fonte.

A negociação com a UE, de toda forma, não vinha sendo prejudicada pela Venezuela porque já estava definido, desde o início, que o país governado por Maduro não participaria dos entendimentos. Ainda assim, integrantes do governo venezuelano compareceram à mais recente rodada de negociações, ocorrida em outubro, em Bruxelas. Embora não tenham causado problema, a presença deles já causou certo desconforto entre os negociadores.

 

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