AFP PHOTO / Michele Eve SANDBERG
AFP PHOTO / Michele Eve SANDBERG

Brasileira que presenciou massacre na Flórida teme voltar ao colégio

Júlia, de 14 anos, viu seu professor e colegas mortos; ela ficou escondida no fundo da sala após ouvir tiros

Claudia Trevisan, Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2018 | 21h10

PARKLAND, EUA - Quando conseguiu se comunicar pelo WhatsApp com a filha Júlia, de 14 anos, a brasileira Flávia Soares recebeu uma mensagem que a deixou em pânico: “Meu professor tá morto. Reza muito mãe. Por favor. Tô com muito medo”. No fundo de sua sala de aula, a estudante tremia a cada ruído, com temor de que ele fosse o prenúncio da volta do atirador Nikolas Cruz, que  matou 17 pessoas na escola de ensino médio Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida.

+ Atirador que matou 17 em escola treinou em grupo extremista branco

“Quando meu professor foi fechar a porta da sala de aula, ele levou um tiro. Eu estava de costas e, quando me virei, vi que ele estava no chão com a mão ensanguentada”, lembrou Júlia. O atirador continuou o massacre no corredor da escola, sem entrar na sala em que ela e cerca de 15 colegas se esconderam. A porta permaneceu aberta, já que o professor foi morto antes de concluir o protocolo de segurança em caso de ataque a tiros: fechar as portas, apagar as luzes e levar os alunos para os fundos.

Júlia ficou quase uma hora escondida, em silêncio. “Ouvimos gritos e começamos a chorar, porque achávamos que era o cara voltando, mas era a polícia.” A saída da escola a levou a um trajeto de horror. “O corredor estava coberto de sangue e vi os corpos de seis pessoas no chão. Nunca achei que isso fosse acontecer na minha escola.”

Quando os tiros começaram, Júlia não sabia se era um ataque de verdade ou um dos treinamentos que passaram a integrar a rotina de estudantes dos EUA. Desde o início deste ano, tiros foram disparados em escolas americanas pelo menos 18 vezes, o que representa uma média de um caso a cada 2,5 dias.

+ Atirador da Flórida tinha problemas familiares e perdeu pais adotivos

Nesta quinta-feira, dia 15, Júlia não sabia como voltará a frequentar a escola. “Não vou mais me sentir segura. Vai ser muito estranho voltar para a sala em que meu professor morreu e para o corredor onde vi pessoas mortas.”

Flávia se mudou com a família para Parkland, na Flórida, há três anos, em busca de oportunidade econômica e empurrada pelo temor da violência no Brasil. Depois do ataque de quarta-feira, ela se perguntava por que há tantas armas nos EUA e em Parkland, cidade que registra um dos menores índices de criminalidade da Flórida.    “A escola é um dos lugares em que você acha que seu filho estará seguro.”

Também de 14 anos, a filha de Cinthya Mancini, Giovanna, se trancou com outros alunos em um pequeno depósito no fundo de sua sala de aula. De acordo com as duas mães, as portas da escola são blindadas e não podem ser abertas pelo lado de fora. Cinthya disse que Cruz atirou na porta do depósito, mas não conseguiu abri-la. Em frente da escola desde o início da tarde, a mãe recebia mensagens episódicas da filha, nas quais ela dizia que estava bem.

+ Trump promete visitar vítimas de Parkland e pede 'mudança de cultura' 

Giovanna estava no último grupo que saiu da escola, pouco depois das 18h. Como havia a suspeita de um segundo atirador, o reencontro com Cinthya não ocorreu no local, mas na biblioteca de Parkland, que tem 31 mil habitantes. Dos 3.000 estudantes da escola, cerca de 25 são brasileiros. No ensino médio, concentrado em um prédio ao lado, há pelo menos outros 25.

Daniela Lemos mudou com o marido e os três filhos para Parkland há um ano, em busca de segurança e ensino de qualidade. “Saímos de São Paulo por causa das crianças. Achamos que seria mais seguro, mas não está sendo fácil. Primeiro foi o furacão e agora isso”, disse Daniela, cujo filho Vítor Otávio, de 18 anos, é aluno da escola. Quando soube que havia um ataque a tiros, ele conseguiu correr e sair do local. O ataque mudou a posição favorável de Daniela em relação ao acesso às armas. “As crianças têm contato com armas muito jovens. Não é saudável.”

O ex-goleiro do Palmeiras, Bruno Cardoso, relatou ao Estado os momentos de tensão vividos por sua filha Maria Fernanda, de 15 anos. "De manhã, ela tinha feito um treinamento contra incêndios. No resto do dia, teve as matérias normais, mas durante a última aula o alarme de incêndio soou novamente", disse Bruno, explicando que sua filha estava em uma sala no 2º andar do prédio ao lado de onde ocorreu o ataque.

"Mesmo assim, eles saíram das salas e foi quando ouviram os tiros. Então, voltaram e as professoras iniciaram 'lockdown' - procedimento de segurança para manter os estudantes em ambiente seguro. Só depois descobriram que era um ataque de verdade", afirmou Bruno.

De acordo com o atleta, em casos como o ocorrido em Parkland a primeira medida de segurança é se trancar no interior das salas de aula porque as portas não podem ser abertas por fora. "Eles também apagam as luzes e se abrigam dentro dos armários - se não couber todo mundo, ficam na parede oposta à porta."

"De tempos em tempos as escolas aqui fazem treinamentos para prevenir casos de atiradores e também de ataques com bombas", disse Bruno, relembrando que há pouco tempo uma equipe do FBI (a polícia federal americana) foi à escola para avisar que ocorreria um treinamento contra atiradores.

Ao todo, Maria Fernanda ficou entre 3 e 4 horas dentro da sala porque o prédio em que ela estava foi um dos últimos a ser vistoriado e liberado pelos policiais. "Nós ainda não sabemos quem são as vítimas do ataque, mas entre o que já foi divulgado o único que ela conhecia era o professor de geografia." / COLABOROU MURILLO FERRARI

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.