Heloísa Cardoso de Barros / ARQUIVO PESSOAL
Heloísa Cardoso de Barros / ARQUIVO PESSOAL

Brasileira relata primeiro dia em quarentena obrigatória no Reino Unido

Estadia determinada pelo governo britânico custa R$ 13 mil; ‘Eu estava morrendo de medo, mas foi tudo bem tranquilo’, diz paulistana 

Por Ilana Cardial, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2021 | 12h00

Quem viaja do Brasil para o Reino Unido deve passar dez dias de quarentena em hotéis autorizados pelo governo. O pacote de hospedagem custa 1750 libras para um adulto – equivalente a R$ 13 mil – e inclui estadia, três refeições diárias e ônibus entre aeroporto e hotel. A medida é obrigatória e passou a valer nesta segunda-feira, 15.

A paulistana Heloísa Cardoso de Barros, de 41 anos, foi uma das primeiras pessoas a ficar isolada em um desses hotéis em Londres. “Eu estava morrendo de medo. Li matérias em um jornal britânico que mostrava um quarto horroroso e tive medo de ser maltratada na imigração”, conta a designer, “Mas não aconteceu. Foi tudo bem tranquilo e me trataram muito bem”. 

A regra se aplica a todos os residentes do Reino Unido que visitem ou passem por um dos 33 países da chamada “lista vermelha”, que concentra locais considerados, pelo governo britânico, focos das variações do coronavírus. Além do Brasil e dos outros países da América do Sul, a África do Sul e Portugal estão listados.

Aqueles que voam para o Reino Unido de países que não constam na “lista vermelha”, como os Estados Unidos, devem fazer quarentena por dez dias em casa. Na Escócia, todos os passageiros aéreos devem se isolar nos hotéis determinados independentemente do país de origem.

Viajantes que não cumprirem as obrigações podem enfrentar multas de até 10 mil libras – mais de R$ 74,6 mil. Os que mentirem sobre visitas aos países listados podem encarar até dez anos de prisão, segundo o governo britânico. 

As reservas devem ser feitas antecipadamente pelo site do governo britânico. As 1750 libras são a taxa para um quarto com um único adulto por dez dias (11 noites). A taxa para um segundo adulto, no mesmo quarto, é de 650 libras. Para uma criança, 325 libras.

Moradora na vila Ystradgynlais desde 2015, em Swansea, no sul do País de Gales, Heloísa decidiu visitar os pais no Brasil. Sem vê-los há um ano, por conta da pandemia, a viagem coincidiria com as festas de fim de ano. “Era para eu passar 30 dias (no Brasil), acabei ficando 65. E ainda tenho os próximos dez dias longe de casa”, diz ela após ter tido três voos cancelados. “Tem muita gente aqui nos culpando por ter saído do país, mas não era proibido viajar. As companhias aéreas são bem responsáveis, especialmente a British Airways”. O anúncio de que a estadia obrigatória custaria 1.750 libras foi feito no dia 9 de fevereiro, quatro dias antes do retorno de Heloísa. De acordo com a brasileira, as informações do governo britânico não eram claras e os sites para fazer as reservas saíram do ar. “As informações vinham a conta gotas. O que a gente sabia era o que circulava na imprensa”.

Ela só conseguiu pagar o valor no dia 12. “Depois que paguei, tive que correr para fazer o teste de covid-19 no aeroporto (R$ 350), porque era o único lugar que fazia uma noite antes. Peguei o resultado de madrugada, em Guarulhos”, diz ela, que acredita que “muita gente acabou desistindo” pela falta de informações.

No hotel, os viajantes precisam realizar o teste de covid-19 no segundo e no oitavo dia, já inclusos no pacote. “Eu vou fazer o teste amanhã. Se testar positivo, é como se zerasse a contagem, e aí começasse a contar os dez dias”. A mesma lógica se aplica no teste seguinte. Caso a quarentena seja estendida, a taxa extra por dia é de 152 libras (R$ 1134). 

Por fazer parte da estreia dos hotéis de isolamento, Heloisa temia pelas condições da hospedagem e a forma com a qual seria recebida. “Foi uma viagem muito cansativa, não consegui dormir um minuto no avião. Fiquei muito preocupada com o que me esperava aqui”. Felizmente, foi bem surpreendida. 

Do aeroporto às refeições

Os viajantes que voam de países da 'lista vermelha' podem chegar por cinco aeroportos. Heloísa desembarcou no Aeroporto de Heathrow, onde foi escoltada por um segurança para buscar sua mala. “Eu não podia chegar perto de ninguém, ele tinha que fazer questão de que eu não iria interagir com outros viajantes”.

Seguiu com outras 30 pessoas que chegavam dos países da ‘lista vermelha’ – cada um com um acompanhante designado pelo governo. Os documentos e as malas foram checados em uma área separada dos demais passageiros. “Precisei mostrar o recibo do hotel de quarentena, teste de covid e vários documentos. Como estava tudo certo, me encaminharam para um ônibus grande com outras 10 pessoas”. 

A quarentena de Heloísa ocorre no hotel Radisson Blu Edwardian até o dia 24. “A gente foi muito bem recebido, com staffs muito bem preparados”. Em uma sala de conferência, a brasileira recebeu cardápios com opções para os próximos cinco dias. Estão inclusas três refeições diárias, que contam com duas opções de prato (uma vegetariana e outra não).

“A comida é muito boa. (...) Tem umas mais exóticas, como salada de macarrão com maionese apimentada, mas outras normais, como frango com batatas. Se eu não gostar, posso pedir por aplicativos de entrega”. Não há contato físico entre hóspede e funcionários, de acordo com Heloísa. “Eles deixam minha comida em uma sacola. Eu pego, fecho a porta e, depois, deixo o resto lá fora”. 

No quarto, a paulistana não se queixa de nada. “Achei esse quarto muito limpo, consigo até andar descalça. Tem uma mesa para jantar, onde dá também para ler e escrever. Posso fazer compras online no supermercado e consigo fazer café e chá aqui. É um dos quartos mais simples, mas em um hotel cinco estrelas”. 

Para Heloísa, o valor da estadia não foi um problema graças às economias feitas durante a pandemia. Ainda assim, aponta que várias pessoas, especialmente as que lidam com os altos valores de aluguéis em Londres, devem ser prejudicadas pela medida. “Acho que pegou muita gente desprevenida. Para muitos brasileiros que moram aqui, o valor vai deixar a situação financeira muito ruim”. 

“Eu não gostaria de estar fazendo (a quarentena no hotel), mas entendo que é necessária. É necessária e veio muito tarde”, opina Heloísa. “Desse jeito, acho que não vai ser suficiente de qualquer maneira. Parar só países da América do Sul, África e Portugal não vai impedir que as variantes cheguem aqui. Muita gente saiu do Brasil, foi para os EUA e não fecharam a fronteira para lá. Acho que essa medida vai ajudar a não deixar a situação tão ruim como poderia ser, mas não vai impedir a variante de entrar”.

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