Claudio Reyes / AFP
Claudio Reyes / AFP

Brasileira no Chile colocou móveis na porta com medo de saques

Moradoras contam como tentam manter a rotina diante dos protestos espalhados pelo país; turistas também enfrentam dificuldades para retornar ao Brasil

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 19h34

O Chile enfrenta o quinto dia seguido de protestos, iniciados após o aumento de quase 4% nas tarifas do transporte público do país. Milhares de manifestantes estão indo às ruas da capital Santiago e de diversas outras províncias, também afetadas pelos decretos de estado de emergência e de toque de recolher noturno. Brasileiras que moram no país relatam ter vivido momentos de tensão nos últimos dias, como é o caso de Soraya Sousa, cake designer que desde 2013 reside em Cajón del Maipo, região metropolitana de Santiago

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A brasileira teve o primeiro contato com os tumultos ainda na quarta-feira da semana passada, dia 16, quando estava no metrô a caminho da capital e viu várias pessoas pulando as catracas da estação. “Pensei até que fosse roubo. Quando vi, todos eram estudantes, e os seguranças não fizeram nada”, relembra.

A situação piorou gradativamente até o final de semana. No sábado, ela e o marido saíram de casa para fazer compras no supermercado e desistiram, após avistarem a longa fila que se formava na porta. “Já estava complicado na volta, chamei um carro com motorista de aplicativo para fugir da confusão. Tinha muito engarrafamento”.

No domingo, a tensão tomou conta da casa em que ela e o marido chileno habitam. Chegavam notícias do município de Puente Alto, próximo ao local onde residem, de que um supermercado de bairro havia sido saqueado pelos manifestantes, que logo depois invadiram um condomínio de casas ao lado.

Boatos de saque e móveis na porta contra saques

“Como também tem um supermercado próximo à minha casa, surgiu um boato de que os mesmos manifestantes iriam para lá, e iriam invadir os condomínios. Quando meu marido disse que teríamos que esconder as coisas de valor, até chorei. Colocamos móveis nas portas, estávamos prontos para enfrentá-los”.

A situação só melhorou quando ficaram sabendo que o Exército havia montado uma barricada na estrada para conter os manifestantes. Apesar de não terem sido diretamente afetados, Soraya e o marido não saem de casa desde o domingo.

“O governo pede para que a gente evite sair de casa, evite ir para lugares públicos. O toque de recolher agora começa as 18h aqui na região”, se estendendo até as 6h do dia seguinte.

Filhos sem poder ir à escola e ansiedade

A pedagoga Daniela Guerreiro, brasileira que reside há três anos no Chile, fica apreensiva com a reação das filhas perante a situação. A família não sai de casa desde sábado, e as aulas permanecem suspensas.

“A minha filha de sete anos está estranhando, e eu estou tendo que começar a dar uma visão de mundo para ela. É estranho para nós, brasileiros, vermos o Exército nas ruas. Isso assusta, causa uma ansiedade”.

Ela conta que o bairro onde reside, em Santiago, é tranquilo, e vários jovens têm saído às ruas pacificamente para protestar. “Mas nunca se sabe, nessa situação qualquer coisa pode explodir”, relata Daniela.

O receio é tanto que a funcionária que ajuda nas funções domésticas da casa está dormindo no trabalho desde a noite de sexta-feira. “Como ela teria que depender do transporte público para ficar indo e voltando, e está perigoso, ela já preferiu não sair”.

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Serviço de transporte reduzido

Desde o final de semana, somente uma linha de metrô está em funcionamento em Santiago, e mesmo assim, algumas estações estão desativadas após terem sido vandalizadas.

Apesar da situação, tanto Daniela quanto Soraya reconhecem e elogiam a solidariedade dos chilenos perante a situação. Em grupos no Whatsapp e Telegram, vizinhos com carro têm se oferecido para irem até supermercados e farmácias, oferecer caronas até a estação de metrô mais próxima em funcionamento ou mesmo para cuidarem das crianças impossibilitadas de irem à escola.

“São pessoas que eu nem conheço. Não vejo os chilenos serem tão coletivos no dia a dia, mas nesses momentos acabam se ajudando”, explica Daniela.

“Os vizinhos estão se juntando para ver como vamos garantir a segurança do bairro. Eles vestem um colete amarelo fluorescente para se diferenciar dos delinquentes quando chega o Exército”, conta Soraya.

Retorno difícil

Turistas brasileiros também tem sido afetados pelas manifestações em todo o país. As amigas Carolina Cachoni e Ligia Bolognesi passaram férias no Deserto do Atacama e tentam deixar o local desde segunda-feira, data em que estavam agendados os dois voos que as levariam de volta ao Brasil.

Após terem se deparado com a estrada bloqueada a caminho do aeroporto de Calama, ainda na segunda, elas retornaram ao hotel e conseguiram reagendar seus voos somente para quarta-feira.

“Os manifestantes bloquearam a estrada com pedras, e seguravam alguns objetos pontiagudos, que pareciam oferecer algum risco. E não deixavam ninguém passar. Foi um protesto pacífico, apesar de atrapalhar a rotina”, conta Ligia.

“Um outro grupo de turistas preferiu pegar um caminho mais longo para tentar chegar ao aeroporto, e nem tinham certeza se daria certo. Mas não tinha mais de 100 pessoas no protesto”, relata Carolina.

Houve avanço nesta terça. As brasileiras conseguiram chegar ao aeroporto de Calama, abarrotado de gente, após terem visto manifestantes se prepararem para mais um dia de protestos na estrada. Elas não conseguiram antecipar o voo para Santiago e o segundo trajeto com destino a São Paulo, como desejavam, por causa do acúmulo de passageiros. Depois de muito esforço, conseguiram um quarto de hotel próximo ao aeroporto.

“Aqui do lado tem comércio, mas tudo está fechado. Não temos o que comer. O funcionário do hotel acabou abrindo uma exceção para a gente e preparou um sanduíche, até o horário do jantar”, afirmou Ligia. Segundo a brasileira, excepcionalmente, o jantar será servido durante uma hora somente, para que os hóspedes retornem rápido aos seus quartos.

Foi solicitado para que não saíam do hotel, onde há um carro de polícia na porta. Elas esperam conseguir chegar ao aeroporto de Santiago na quarta-feira, também com excesso de passageiros, de onde devem retornar ao Brasil. 

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