AP Photo/David J. Phillip
AP Photo/David J. Phillip

Brasileiro de 9 anos detido nos EUA já usa 'portunhol'

Após 23 dias detido em abrigo no Texas, longe da mãe, menino já mistura idiomas 

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2018 | 05h00

O garoto de 9 anos é o único brasileiro entre as 200 crianças e adolescentes que estão em um abrigo para imigrantes menores no Texas. Separado da mãe há 23 dias quando eles cruzavam a fronteira entre México e EUA, ele já fala português entremeado de espanhol, língua usada por colegas e professores.

Na quinta-feira, ele conseguiu conversar por telefone pela primeira vez com a mãe, libertada da prisão no dia anterior. “Agora, o abrigo tenta encerrar o processo dele, com a obtenção de documentos que comprovem que a brasileira é mesmo sua mãe”, disse o cônsul honorário do Brasil em Houston, Texas, Felipe Santarosa, que visitou o menino ontem. 

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Segundo ele, a mãe do garoto está em Massachusetts, onde tem parentes. O Estado é um dos principais destinos de brasileiros que imigram para os EUA e se instalam em comunidades na região de Boston. Muitos seguem passos de parentes.

Santarosa disse que está montando um “quebra-cabeças”, no qual tenta identificar os brasileiros em abrigos no Texas e localizar seus pais, detidos em prisões federais. Até ontem, ele havia determinado a identidade de quatro menores. Faltam outros quatro. 

Um dos oito não estava incluído no número de 49 crianças e adolescentes brasileiros em abrigos de diferentes Estados americanos informado pelas autoridades do país ao consulado de Houston. Com isso, subiu para pelo menos 50 o total de menores que foram separados de seus pais na fronteira. A maioria deles, 29, está em abrigos de Chicago, a cerca de 2,5 mil quilômetros da fronteira com o México.

A diretora do Departamento Consular de Brasileiros no Exterior do Itamaraty, a embaixadora Luiza Lopes, disse que três irmãos de 8, 10 e 16 anos mantidos no abrigo Estrella del Norte, no Arizona, serão soltos nos próximos dias. Presa no mesmo Estado, a mãe deu autorização para que os menores fiquem sob a guarda de parentes que vivem nos EUA. “Eles ficarão na casa de parentes até que saia uma decisão sobre a situação da mãe”, afirmou a embaixadora. “Esperamos que nos próximos dias outros casos sejam encaminhados para uma solução.”

Santarosa observou que o contato dos filhos com os pais nem sempre é imediato, já que os adultos estão em prisões federais e enfrentam uma série de restrições para se comunicar por telefone. Em sua visita de ontem, ele se encontrou com o garoto de 9 anos em uma sala de reuniões. “Ele disse que estava sendo bem tratado e tinha aulas em espanhol. Na conversa, ele misturava palavras em português e espanhol”, observou Santarosa. Segundo ele, o menino também tem aulas de inglês.

A separação das famílias decorre da política de “tolerância zero” adotada pelo governo Donald Trump em abril. Desde então, todos os imigrantes que entram ilegalmente no país e são apreendidos passaram a ser processado por violações criminais, o que exige seu envio a prisões federais, onde não há estrutura para menores. Antes, eles eram alvo de procedimento de deportação. Os que estavam acompanhados de filhos costumavam ser libertados sob fiança e respondiam em liberdade. 

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