Brasileiro deve liderar inquérito sobre armas químicas na Síria

Paulo Sérgio Pinheiro investigaria quem foi responsável pelo uso de arsenal proibido nos arredores de Damasco

Jamil Chade, Correspondente - O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2013 | 02h14

GENEBRA - O trabalho para determinar quem usou armas químicas na Síria pode acabar sob a responsabilidade do brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, que preside a Comissão de Investigação da ONU sobre a Síria. Ontem, uma das integrantes do grupo, Carla del Ponte, indicou que os investigadores estão trabalhando para conseguir acesso ao país. Entre suas atribuições, segundo ela, está justamente a de identificar os culpados por eventuais crime de guerra cometidos no conflito.

De acordo com Carla, a comissão liderada pelo brasileiro está em contato com a missão enviada pela ONU para avaliar se, de fato, um ataque químico ocorreu no dia 21 de agosto nas proximidades de Damasco. A ideia, segundo ela, é a de que o primeiro grupo de inspetores determine se produtos químicos foram empregados. Esses inspetores não têm o mandato para tentar determinar quem cometeu o suposto crime.

Já a comissão liderada pelo brasileiro, que conta com mais de 20 funcionários, avaliaria quem seriam os autores. "É a Comissão de Investigação da ONU sobre a Síria que deve analisar quem usou essas armas", disse. O regime de Bashar Assad afirma que foram os rebeldes que usaram o armamento proibido, mas serviços de inteligência dos EUA, Europa e Israel afirmam que o ataque partiu das forças do governo.

Em junho, o grupo liderado pelo brasileiro produziu um informe apontando que tem "bases razoáveis" para afirmar que armas químicas foram usadas. No documento, a comissão indica que testemunhas acusavam o governo pelo ataque.

Listas. No fim de agosto, Carla causou polêmica ao conceder uma entrevista indicando que essas armas teriam sido usadas por rebeldes. Seja quem for o autor, ela insiste que a lista de suspeitos de cometer crimes de guerra na Síria é "cada vez mais longa". O grupo vem produzindo uma relação com nomes de pessoas, unidades, soldados e rebeldes que, um dia, poderiam ser levado a julgamento. A lista está guardada num cofre. "Estamos tentando identificar militares e políticos envolvidos nesses crimes", disse.

Segundo ela, ambos os lados no conflito estão cometendo crimes "horríveis". "Não existe ninguém bonzinho nessa história. São todos maus", declarou. "Os crimes, de ambos os lados, são tão sérios e incríveis como o do outro. Nunca vi tais métodos de tortura, nem mesmo na guerra dos Bálcãs", disse.

Carla disse ontem que mesmo os países que forneceram armas químicas, seja para rebeldes ou para o governo, também podem ser considerados responsáveis, caso for determinado que um crime de guerra foi cometido.

Ela afirmou também que, mesmo que haja um ataque americano à Síria, seu trabalho continuará. "Estamos no bom caminho para conseguir uma autorização para ir para a Síria", declarou.

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