Ahmed Jadallah/Reuters<br>
Ahmed Jadallah/Reuters

Brasileiro entrega à ONU provas contra Estado Islâmico

Segundo relatos colhidos por Paulo Sérgio Pinheiro, jihadistas cometem execuções diárias, apedrejam mulheres e proíbem jeans

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2014 | 05h00


GENEBRA - Adolescentes de 13 anos armadas com Kalashnikov e granadas, execuções diárias, proibição até de usar calça jeans e mulheres apedrejadas até a morte. Esses são alguns dos relatos colhidos pela comissão liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro que nesta terça-feira, 16, apresenta à ONU provas de violações cometidas pelos radicais do Estado Islâmico (EI) na Síria. 

Muitos dos depoimentos indicam que opositores sírios, depois de passar três anos sob tortura do governo de Bashar Assad, agora sofrem nas mãos dos jihadistas. Pinheiro apelará para que, caso haja um ataque da coalizão montada na segunda-feira, 15, em Paris pelo Ocidente e países aliados, que a vida de civis seja protegida e a ofensiva respeite o princípio da proporcionalidade. Ele também alertará: a guerra na Síria “não vai ser resolvida no campo de batalhas”. 

O brasileiro selecionou alguns dos 3,2 mil relatos colhidos nos últimos três anos. O cenário mistura práticas medievais e matanças com armas sofisticadas. 

As condições de higiene nas prisões criadas pelo EI seriam dramáticas. Segundo relatos de prisioneiros que escaparam, insetos percorriam os corpos dos detentos, atados pelas mãos e pés. Não havia banheiro e ninguém tomava banho por meses. Muitos tinham cabelos longos depois de meses esquecidos nessas prisões, convivendo com o cheiro de cadáveres.

Entre os entrevistados está um jornalista de Alepo, que teve um destino que começa a se repetir em muitas partes da Síria. Depois de ser preso e torturado em três ocasiões pelo governo por sua ação contra Assad, passou a ser alvo dos jihadistas, que também o torturaram. Na primeira vez, em 2011, ele foi detido pelo governo, recebeu choques elétricos e ficou pendurado pelos pulsos por dias. O mesmo ocorreu em mais duas ocasiões. Em 2013, foi a vez do EI atacá-lo, num esforço para silenciar qualquer crítica. Ele acabou sendo levado à prisão improvisada, no antigo hospital de Qadi Askar, transformado em centro de execuções. O jornalista foi torturado e presenciou, num único dia, a execução de 19 pessoas de sua cela. 

Outro entrevistado pela comissão de Pinheiro era um homem de Minbeij. Ele narrou como o EI tomou sua cidade do Exército Sírio Livre. Desde então, as mulheres “têm de cobrir seus rostos e as que não obedecem são apedrejadas”. A testemunha relatou execuções públicas por parte do EI entre abril e junho. “As vítimas eram mortas com um tiro na cabeça ou tinham suas gargantas cortadas. Alguns eram decapitados”, contou. Corpos eram deixados por dias em praças públicas, alguns deles em cruzes ou com as cabeças em troncos. “As pessoas estavam aterrorizadas”, indicou. 

Em 24 de agosto, o grupo liderado por Pinheiro entrevistou um homem de Homs. Segundo ele, os radicais passaram a proibir as pessoas de usar calças jeans e toques de celulares com música. Mostrar vídeos nos telefones também foi proibido. 

Segundo o entrevistado, adolescentes de 13 e 14 anos estavam lutando pelo EI. “Esses garotos trabalhavam como guardas em bloqueios”, indicou. “Estavam armados com fuzis Kalashnikov e granadas”, disse, apontando a existência de campos de treinamento para crianças. No vilarejo de Hassakah, ele viu pelo menos dez crianças-soldado. 

Segundo os relatos, os jihadistas eram tunisianos, líbios e até chechenos. Segundo a testemunha, qualquer motivo era suficiente para um assassinato. Numa ocasião, um de seus amigos foi morto na frente dele por se recusar a cumprir a ordem dos jihadistas de assistir a uma execução pública. 

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