MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO
MARCOS ARCOVERDE/ESTADÃO

Brasileiro investigado por assédio sexual em agência da ONU deixará cargo

Documentos apontam que o diretor-executivo da Unaids, Michel Sidibé, agiu para chegar a um acordo com uma mulher que disse ter sido vítima de Luiz Loures; investigação concluiu que não havia elementos suficientes contra ele e recomendou o arquivamento do caso

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2018 | 08h54

GENEBRA - O brasileiro Luiz Loures, vice-diretor-executivo da Unaids, deixará seu cargo em março e não buscará um novo mandato. Ele estava no centro de uma investigação de assédio na agência da ONU que levou ativistas a questionarem a capacidade da organização em lidar com casos dessa natureza e a denunciarem a tentativa da cúpula do órgão em abafar o problema.

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De acordo com documentos obtidos pelo Estado em janeiro, o diretor-executivo da Unaids, Michel Sidibé, agiu para chegar a um acordo com uma mulher que disse ter sido vítima de assédio sexual por parte de Loures. A investigação concluiu que não havia elementos suficientes contra o brasileiro e recomendou arquivar o caso, o que acabou ocorrendo.

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Loures, inocentado pela investigação, era um dos brasileiros com o cargo mais elevado dentro do sistema internacional, equivalente a secretário-geral-adjunto da ONU.

Em um breve comunicado divulgado nesta sexta-feira, 23, a Unaids apenas indica que o brasileiro comunicou seu "desejo de não buscar uma renovação de sua posição". "Loures terminará seu mandato ao fim de março de 2018", indicou a agência. Sidibé o "agradeceu por 22 anos de serviços dedicados à Unaids". O comunicado não esclarece o motivo pelo qual Loures pediu para sair.

No início do mês, ativistas protestaram ao secretário-geral da ONU, António Guterres, diante do arquivamento da denúncia contra o brasileiro. Uma carta foi enviada pela entidade Aids-Free World, que lidera a campanha Code Blue, pedindo o fim da impunidade para a exploração sexual e abusos entre funcionários da ONU. Nos últimos anos, ela revelou uma série de escândalos de abusos sexuais por parte de soldados das tropas das Nações Unidas em missões de paz.

Em janeiro, a Unaids anunciou que encerrou uma investigação contra o brasileiro, apontando que as denúncias “não estavam substanciadas”. Loures era um dos responsáveis pela política de aids no mundo e entrou na entidade ainda nos anos 1990. Médico pela Universidade Federal de Minas Gerais, ele ainda passou pela Universidade de Berkeley, nos EUA. No site oficial da Unaids, ele é descrito como um dos “pioneiros” no tratamento de casos de aids.

Procurado pela reportagem do Estado, Loures indicou por meio da assessoria de imprensa da agência que não se pronunciaria sobre o caso.

Denúncia

O suposto assédio teria ocorrido em maio de 2015 em um hotel na Tailândia e depois de um encontro da Unaids sobre prevenção do HIV. O brasileiro teria, na versão da vítima, assediado a mulher depois de uma conversa sobre trabalho em um elevador. Ela ainda o acusava de fazer comentários sobre sua aparência desde 2011.

Contudo, segundo o processo obtido com exclusividade pelo Estado, os investigadores se disseram “perplexos” diante de uma tentativa de Sidibé de acabar com a polêmica, mesmo sabendo que a investigação ocorria.

Segundo a vítima, o chefe da agência a teria chamado no dia 28 de março de 2017 em Estocolmo para dizer que “Luiz Loures gostaria de pedir desculpas pelo que ele fez”. De acordo com a versão da vítima, ela ficou “muito insultada” e teria informado o ombudsman da Unaids sobre o ocorrido.

Sidibé foi questionado no dia 20 de outubro pelos investigadores e disse que Loures nunca pediu a ele que falasse com a vítima. Mas indicou que sugeriu que os três se reunissem para “esclarecer o caso e não o transformasse em um grande problema”. O objetivo seria evitar uma complicação para “a credibilidade da organização”.

Ele confirmou que disse à vítima para encontrar uma “solução, informar e ir adiante”. Mas garantiu que se ela não aceitasse esse caminho, ele a apoiaria.

Os investigadores apontaram incoerências no relato do chefe da Unaids e ficaram surpreendidos com sua decisão de declarar que pensou que fosse bom “começar esse tipo de processo para garantir que não fosse algo grande”.

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Nos documentos do processo, Loures disse que não solicitou um pedido de desculpas. Em uma audiência com os investigadores no dia 20 de novembro de 2017, ele negou que queria encontrar a autora da queixa, mas confirmou que sabia que o chefe da Unaids havia falado com ela, explicando que a conversa “não levou a lugar nenhum”.

Em suas conclusões, os investigadores apontaram perplexidade com a decisão de Sidibé de procurar a vítima para propor uma “solução informal” sem falar com o brasileiro, “dado que Sidibé sabia que o caso estava sendo investigado oficialmente”.

Apesar das constatações sobre o comportamento da cúpula da agência da ONU, a investigação estimou que não havia evidências suficientes e chegou a destacar incoerências no relato da suposta vítima.

Reabertura

A Aids-Free World pediu que Guterres volte a tratar do assunto das alegações contra o brasileiro em uma reunião que manteria com Michel Sidibé, o diretor-executivo da Unaids. “O caso precisa ser revisto”, declarou Paula Donovan, diretora da ONG, que acusa a investigação de ter ocorrido de forma irregular. A carta também é assinada por Stephen Lewis, outro responsável pela campanha Code Blue.

“Sidibé precisa explicar como assumiu a tarefa de tomar a decisão final e descartar o caso”, afirmou a carta, lembrando que o chefe do brasileiro foi questionado pelos investigadores sobre sua “intrusão no caso”.

O diretor-executivo era, segundo a ONG, testemunha e organizador do júri que iria julgar o brasileiro. “Ainda assim, ele considerou apropriado julgar”, apontou Donovan. “Sr. secretário-geral, o sr. está confrontado como um malogro de Justiça”, alertou.

A denúncia da ONG ainda aponta que os investigadores se disseram “perplexos diante das palavras e ações de Sidibé”. Para a entidade, há “graves alegações contra Loures”. O grupo apelou para que Guterres perceba que tais casos precisam ser lidados com órgãos independentes, neutros e externos.

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O grupo de ativistas aponta que decidiu protestar publicamente em razão do “medo que existe no sistema da ONU pelas possíveis demissões e retaliações”. Isso, segundo a carta, estaria levando os funcionários ao “silêncio”. “O sr. tem a oportunidade de intervir nessa instância e liderar por seu exemplo”, apelou ele.

Procurada pela reportagem do Estado, a Unaids se limitou a enviar um comunicado que havia publicado na semana passada explicando o caso. A entidade garante que tem “tolerância zero” com assédio e está comprometida em lidar com a situação.  

Sem citar no texto o nome do brasileiro, a agência indicou que o caso foi tratado por um órgão dentro da Organização Mundial da Saúde (OMS). Um relatório foi produzido e depois examinado pelo Comitê da Unaids sobre Assédio. “A investigação concluiu que a queixa não foi substanciada e recomendava que ela fosse recusada.”  

O Comitê então “concordou com a conclusão e recomendou que o caso fosse encerrado”. “A Unaids aceitou essa recomendação e recusou o caso”, completou. A entidade também afirmou que o processo segue uma investigação independente, mas indicou que “a decisão final sobre tais assuntos é do diretor-executivo da Unaids”.

Ele também alertou que os funcionários que não estejam satisfeitos com a decisão podem recorrer. Em um levantamento realizado em 2017, a Unaids apontou que dos 427 funcionários que responderam a uma pesquisa, 23 deles disseram que foram vítimas de assédio sexual dentro da organização.

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