REUTERS/Alkis Konstantinidis
REUTERS/Alkis Konstantinidis

Brasileiro que investiga crimes na Síria acusa potências pela crise de refugiados

Paulo Sérgio Pinheiro afirma que comunidade internacional fracassou em negociar um acordo de paz no território sírio

Jamil Chade, CORRESPONDENTE/GENEBRA, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 08h55

GENEBRA – A crise de refugiados na Europa é o "custo" do fracasso da comunidade internacional em negociar um acordo de paz na Síria e governos que têm fornecido armas e apoio financeiro aos grupos beligerantes poderiam também ser responsabilizados por crimes. 

O alerta foi feito pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre os crimes na Síria. Em um discurso diante do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas na manhã desta segunda-feira, 21, em Genebra, Pinheiro acusou o impasse diplomático na comunidade internacional por aprofundar a guerra e o drama dos refugiados.

 

"Ao caminharmos para o quinto ano da guerra, com enormes quantidades de refugiados, a tragédia síria agora chegou até as costas europeias", indicou. “A mortes de crianças, um sofrimento diário das famílias sírias por mais de quatro anos e meio, são veladas diariamente", disse. 

“O profundo sofrimento humano, há tempos visto nos hospitais e campos nos vizinhos da Síria, está chegando com seus rostos exaustos nas estações de trem da Europa e acampando atrás de arames farpados nas fronteiras de Schengen”, alertou, em uma referência ao Acordo de Schengen que estabelece na Europa uma fronteira comum. “Esse é o custo cada vez maior do fracasso em trazer a paz para a Síria”, disse Pinheiro. 

“A crise de refugiados está sendo alimentada pelo conflito sírio”, disse. “Essas duas crises estão profundamente ligadas. É impossível solucionar uma sem a outra”, alertou o brasileiro. “O êxodo sírio está sendo motivado pelo fato de que civis estão sendo as principais vítimas de ataques pelas partes beligerantes”, denunciou. 

Potências. Mas, para Pinheiro, a guerra e o fluxo de refugiados não são de responsabilidade apenas das partes em conflito na Síria. “O fracasso dos estados em se comprometer em negociar a paz é uma maldição para as nossas consciências coletivas”, acusou. “Pior é o fornecimento de dinheiro, armas e treinamento dados a beligerantes na Síria”. 

A acusação se refere a potências internacionais e governos da região que, por anos, têm apoiado diferentes grupos dentro da Síria. “Estados fornecendo armas têm obrigações legais e morais”, indicou Pinheiro. “A responsabilidade pelos crimes ficam com as pessoas que detém as armas e com aqueles que ajudam a colocar essas armas nas mãos de membros desses grupos”, denunciou.

Segundo ele, governos têm o dever de não transferir armas se elas forem usadas para crimes de guerra e contra a humanidade. “É o momento de parar o fluxo de armamentos”, apelou. 

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