REUTERS/Thaer Al Khalidiya
REUTERS/Thaer Al Khalidiya

Brasileiro que investiga crimes na Síria acusa UE de dificultar acesso a testemunhas

Paulo Sérgio Pinheiro aponta que, com a fuga de milhões de refugiados, muitas das testemunhas fundamentais para avaliar o que ocorre dentro no país estão nos territórios europeus

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2016 | 11h12

GENEBRA - O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito dos Crimes na Síria, cobra os governos europeus a darem acesso aos investigadores da ONU para que possam entrevistar refugiados sírios. Nos últimos anos, eles têm deixado o país em guerra para seguir em direção ao continente europeu. O Estado apurou que governos da União Europeia (UE) dificultam o acesso dos inspetores da Comissão de Inquérito aos refugiados, impedindo que novas informações sobre ataques ou crimes sejam obtidas. 

Por cinco anos, os investigadores têm sido impedidos de entrar na Síria para avaliar a crise. Para realizar seus informes, o grupo liderado por Pinheiro tem contado com dados de informes de inteligência e mais de 5 mil entrevistas com vítimas, ex-soldados e líderes que tiveram de fugir. 

Hoje, porém, os investigadores alertam que a falta de informação começa a afetar o trabalho do grupo. “Nossa habilidade para ter acesso a fontes de informação é mais crítica que nunca”, disse Pinheiro. Segundo ele, Damasco tem compartilhado informações com algumas áreas da ONU, mas não com os investigadores. 

Pinheiro também manda um recado para os europeus. “Conforme os refugiados sírios continuam a deixar a região, tem ficado cada vez mais difícil acessar testemunhas e vítimas com novas informações”, disse. “Estamos apelando aos países da Europa que recebem nossos refugiados sírios que nos deem acesso e removam qualquer barreira ao nosso trabalho”, afirmou o brasileiro. “O tempo é crítico, especialmente se a Comissão de Inquérito quiser continuar a preparar documentos sobre a atual situação na Síria, e não apenas informes sobre a história”, disse. 

Segundo ele, sem acesso ao território sírio, os investigadores passaram os últimos cinco anos falando com as vítimas em campos de refugiados na Jordânia, Turquia ou no Líbano. "Agora, precisamos do mesmo gesto da parte dos europeus. Pedimos que o acesso no seja dado agora", insistiu. 

Pinheiro também criticou o fato de que crianças refugiadas são colocadas em prisões ao deixar a Síria. “Muitos menores se aventuram em deixar o país sozinhas”, disse. “Mas no lugar de encontrar segurança, algumas se encontram em prisões sem condições sanitárias no exterior por semanas”, alertou. Para ele, a acomodação dessas crianças em locais apropriados deve ser uma prioridade.  Informes recentes indicaram para a situação de abuso que vivem crianças na Grécia, Itália e outros países. 

Em seu informe apresentado nesta segunda-feira, 19, na ONU, Pinheiro voltou a alertar sobre o fato de que crimes de guerra e contra a humanidade ganharam força nos últimos meses. Segundo ele, porém, o acordo de cessar-fogo é a única esperança para o sofrimento do povo sírio. “Esse acordo já resultou em uma redução substancial de violência”, disse. 

Ele ainda alerta que o cessar-fogo, se for mantido, terá de ser seguido por um acesso humanitário sem restrições. Por enquanto, apesar da suspensão da maioria dos ataques, o abastecimento de remédios e alimentos tem lidado com sérios obstáculos. “A politização da assistência humanitária por qualquer parte não pode ser permitida”, disse. “Burocracia pode ser um obstáculo tão grande como as armas de guerra.”

Pinheiro lembra, porém, que o fracasso da última trégua levou todas as partes para uma guerra ainda maior. “Houve uma multiplicação das frentes e um número inédito de potências externas envolvidas na guerra”, lembrou. “Hoje, a Síria é o campo de batalha dos interesses de muitos atores e que deixam os civis como as principais vítimas de crimes de guerra, e crimes contra a humanidade cada vez maiores”, alertou. Um dos impactos da volta da guerra foi a destruição do setor de saúde: só em Alepo, 25 hospitais deixaram de existir. 

Apesar de denunciar o governo sírio, Pinheiro também  aponta que o Estado Islâmico continua a sequestrar e matar civis e crianças. Ele também aponta como homossexuais têm sido jogados de prédios como punição pelo grupo. 

Na avaliação de Pinheiro, se o cessar-fogo quiser ter sucesso na Síria, todos terão de liberar prisioneiros civis. Ele também pede que todas as prisões sejam abertas aos inspetores independentes.  

“Todas as partes no conflito precisam respeitar o novo cessar-fogo. Essa é a oportunidade para que todas as partes mostrem que estão genuinamente comprometidas em proteger as pessoas que, em nome delas, alegam estar lutando”, disse. 

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