Brasileiro que investiga crimes na Síria pode viajar ainda hoje para Damasco

Paulo Sérgio Pinheiro recebeu o sinal verde do governo de Bashar Al Assad, às vésperas da apresentação de seu relatório sobre o que de fato ocorreu no massacre de Hula

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA,

23 de junho de 2012 | 06h23

GENEBRA - Nove meses depois de ser nomeado pela ONU para liderar as investigações sobre os abusos cometidos por Damasco, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro deve finalmente viajar neste sábado, 23, para a Síria. O Estado obteve informações confidenciais de que Pinheiro recebeu o sinal verde do governo de Bashar Al Assad, às vésperas da apresentação de seu relatório sobre o que de fato ocorreu no massacre de Hula, há um mês, e que deixou 108 mortos.

Segundo o Estado apurou, a indicação de Damasco foi feita na quarta-feira. Mas foi apenas depois de uma série de negociações que envolveu até a diplomacia brasileira e a ONU é que as condições de sua viagem foram estabelecidas. Segundo diplomatas do Itamaraty em Brasília, o novo visto foi emitido pela missão síria em Genebra e Pinheiro, pelo menos até ontem, tinha voo marcado para aterrizar em Damasco no final do dia de hoje. Uma confirmação de sua viagem, porém, ocorreria apenas na manhã de hoje e até o governo russo, visto como aliado de Assad, foi alvo de um lobby por parte do brasileiro.

No início de seu trabalho, Pinheiro chegou a receber o mesmo convite dos sírios. Damasco, porém, insistia que o visto seria dado ao líder da investigação na condição de brasileiro. Pinheiro acabou recusando a oferta, alegando que ou entraria com todos os membros de sua equipe - três - e seria recebido na condição de presidente da Comissão ou não iria.

Por enquanto, a ONU não se pronuncia sobre a viagem e a ordem é a de anunciar que Pinheiro estará em Damasco apenas depois de seu pouso. Mas não são poucos os que alertam que a aceitação é mais uma manobra de Assad para adiar condenações, mostrar que está colaborando e evitar uma pressão. Pinheiro não foi encontrado pela reportagem para comentar sua viagem iminente.

O brasileiro foi escolhido em 2011 para liderar uma equipe independente para apurar violações nos confrontos da Síria. Nos relatórios que já publicou, indicou que as ações por parte do regime de Assad poderiam ser classificadas como crimes contra a humanidade. Também denunciou a morte de crianças e elaborou uma lista secreta de nomes de pessoas responsáveis pelos crimes.

Na próxima quarta-feira, o brasileiro apresentará mais um relatório, desta vez sobre o massacre de Hula, que deixou há cerca de um mês mais de cem mortos. Desses, mais da metade eram crianças e mulheres. O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução em que pedia a Pinheiro que conduzisse a investigação e, desta vez, insiste que os nomes dos responsáveis sejam publicados. "Farei uma reconstituição dos eventos", indicou Pinheiro, em recente entrevista ao Estado. Sem poder entrar na Síria, o brasileiro conduziu as investigações a partir de bases e locais nas fronteiras do país.

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