Denise Chrispim/AE
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Brasileiro que serve no Texas irá da guerra iraquiana à afegã

Há 17 anos no Exército americano, Jorge de Castro diz que, após invasão, vida do povo iraquiano melhorou

Denise Chrispim Marin, enviada especial a El Paso, EUA,

17 de dezembro de 2011 | 22h23

EL PASO, EUA - O primeiro-sargento Jorge de Castro, de 46 anos, está se preparando para seguir para o front americano no Afeganistão em 2012. Na sua folha de serviços na Infantaria do Exército dos EUA estão dois períodos no Iraque, um em Kosovo e outro na Bósnia. O peito de Castro é coberto por uma coleção de medalhas. Na verdade, só uma parcela das recebidas em 17 anos de vida militar.

Castro poderia ser mais um entre os inúmeros militares americanos de origem hispânica. Mas é um dos raros a falar português (e com inconfundível sotaque fluminense), além de muito provavelmente ser o único a torcer pelo Botafogo.

 

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Depois de passar por bases no Havaí, no Alasca e outros lugares, Castro está em serviço no Forte Bliss, em El Paso, na fronteira com o México. Com a mulher Brianda, brasiliense, e a enteada ("filha", prefere), Tehani, de 11 anos, tem uma casa em uma vila militar. A paisagem da região não difere muito da dos desertos onde lutou no Iraque entre 2004 e 2005 e, depois, entre 2008 e 2009, quando atuou no último grupo de combate enviado pelos EUA.

 

A percepção de Castro sobre uma guerra repudiada por boa parte do mundo, incluindo o Brasil, é formada mais pela vivência no terreno do que pelos debates políticos.

 

Na sua primeira ida ao Iraque, logo no início do conflito, ele serviu na região curda, no norte do país, e ouviu os relatos de sobreviventes dos massacres ordenados pelo ditador Saddam Hussein. Participou de mais de 80 patrulhas de combate em 2004, ano em que Saddam foi preso, e perdeu três de seus soldados. Na segunda ida ao front, no coração do Iraque, percebeu a redução acentuada da violência no país e os campos, antes abandonados, irrigados e cultivados com soja.

 

Na sua segunda passagem pelo Iraque, Castro já era casado com Brianda, que conhecera no Havaí. Ela procurava não ver as notícias sobre o conflito e se ocupava com os estudos de Psicologia e com Tehani.

 

Nas conversas por telefone, muitas vezes Brianda ouviu estrondos e alarme antes de a chamada ser cortada. Depois, lembra, vinha a longa espera por um novo contato de Castro. "Não adiantava cair em prantos. Se acontecesse alguma coisa grave, dois soldados viriam bater à minha porta", afirmou.

 

Antes de ingressar no Exército americano, Castro havia provado a vida militar no Brasil. Nascido em Niterói, serviu por seis anos no Batalhão de Operações Especiais do Exército. Uma de suas contribuições foi o treinamento para os primeiros agentes do Bope, da polícia militar fluminense. Em março de 1990, já desligado do Exército brasileiro, foi para Nova York passar alguns meses. Acabou ficando.

 

Lavou pratos em restaurantes, dirigiu limusines e trabalhou na construção até responder a um anúncio de uma empresa de comércio exterior de Nova Jersey. Atuou em Portugal, na Espanha, no México e na Venezuela até chegar como gerente da unidade de Porto Rico, onde se casou, teve dois filhos e se divorciou. Com o fechamento da empresa, entrou para o Exército americano. "Eu já era soldado, estava acostumado à vida militar e pensava que o Exército americano não poderia ser muito diferente do brasileiro", lembrou.

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