Brasileiro representante da OEA no Haiti é afastado por críticas

Ricardo Seitenfus criticou missão de paz da ONU em jornal suíço e foi destituído

Efe

26 de dezembro de 2010 | 16h19

SANTO DOMINGO - A Organização dos Estados Americanos (OEA) destituiu seu representante especial no Haiti, o brasileiro Ricardo Seitenfus, informou no sábado, 25, uma fonte diplomática, que pediu para não ser identificada.

 

A destituição ocorreu após o jornal suíço Le Temps publicar declarações nas quais o diplomata questiona o papel da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), presente no país desde 2004, e a política da comunidade internacional para a nação caribenha.

 

Seitenfus afirmou na entrevista, divulgada no último dia 20, que a Organização das Nações Unidas (ONU) impôs a presença de suas tropas no Haiti apesar de o país não viver uma situação de guerra civil.

 

"O Haiti não é uma ameaça internacional. Não estamos em situação de guerra civil. O Haiti não é nem o Iraque nem o Afeganistão. E, no entanto, o Conselho de Segurança (da ONU), diante da falta de alternativa, impôs a presença dos 'capacetes azuis' desde 2004, após a saída do presidente (Jean-Bertrand Aristide)", afirmou o brasileiro ao periódico.

 

O diplomata, que previa terminar seu mandato nos próximos meses, também disse na entrevista que o país caribenho, "no cenário internacional, paga essencialmente pela grande proximidade com os EUA. O Haiti foi objeto de uma atenção negativa por parte do sistema internacional. Trata-se, para a ONU, de congelar o poder e de transformar os haitianos em prisioneiros de sua própria ilha".

 

"Os haitianos cometeram o inaceitável em 1804 (ano de sua independência): um crime de lesada altivez para um mundo inquieto. O Ocidente foi, então, um mundo colonialista, escravista e racista que baseia sua riqueza na exploração de terras conquistadas. Então, o modelo revolucionário haitiano deu medo às grandes potências", acrescentou.

 

Seitenfus analisou também o papel das ONGs no Haiti, em particular após o terremoto de 12 de janeiro, e disse que "a idade dos voluntários que chegaram depois do terremoto é muito baixa; desembarcaram no Haiti sem experiência alguma. Depois do terremoto, a qualidade profissional caiu muito. Existe uma relação maléfica e perversa entre a força das ONG e a debilidade do Estado haitiano", disse o diplomata.

 

Além da responsabilidade no Haiti, Seitenfus era o delegado da OEA perante a Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti (CIRH). O país caribenho sofrem em janeiro de 2010 a maior tragédia de sua história, com o terremoto que devastou boa parte da nação. Além disso, os haitianos enfrentam desde outubro um surto de cólera que já matou mais de 2.500 pessoas.

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