Brasileiro sobrevivente diz que esgotou sua cota de sorte

Começava a anoitecer, na sexta-feira, e Anthony Ross, de 38 anos, foi com os filhos de 8 e 6 anos acender uma velinha na janela de sua casa, gesto que milhões de pessoas têm feito nos Estados Unidos desde o ataque terrorista contra Nova York e Washington.Era o dia do 10º aniversário de casamento de Tony e Noreen, também de 38 anos. Engolindo um soluço e pensando alto, o marido dizia: "Acho que todos nós nascemos com uma cota de sorte, e tenho medo de ter esgotado a minha." Ele era o único brasileiro entre cerca de 80 dos quase 200 operadores de câmbio do Fuji Bank que trabalhavam no 50º andar da Torre Norte, a primeira das edificações gêmeas do World Trade Center atacada pelos jatos pilotados por terroristas na terça-feira. Filho adotivo de americanos, Tony usa o jeito brincalhão aprendido no país onde nasceu e viveu até os 14 anos para projetar uma conseqüência sombria que pode enfrentar depois de ter sobrevivido à tragédia."O senhor ´Antonio das Roças´ aqui vai morrer de câncer no pulmão um dia, de tanto amianto que respirei, mas ainda me sinto com uma abundância de sorte inexplicável." Tony é funcionário do Fuji há quase sete anos. Naquela manhã, já havia feito seu relatório sobre o comportamento das moedas asiáticas e européias e estava indo ao banheiro quando ouviu o barulho de uma explosão."Quem trabalhava naqueles prédios já estava acostumado com a oscilação e tremor deles por causa do vento, mas a coisa dessa vez foi tão feia que me derrubou no chão; a torre se inclinou repentinamente, não voltava à posição normal e havia um barulho de aço sendo esticado", descreve o operador. Ele deixou a sala de câmbio e foi verificar o que se passava nos corredores, ainda sem forro no teto por causa de uma mudança nos escritórios iniciada alguns dias antes.Viu que as estruturas de concreto estavam estalando. "Pensei que tinha sido uma bomba, como aconteceu em 1993 no subsolo das torres", diz Tony. Pelas janelas, ele viu papéis, metais e fogo vindo dos andares superiores. Voltou para a sala onde trabalhava e chamou todo mundo para descer. Os 28 minutos que gastou para chegar à rua (nos quais tentou ininterruptamente chamar sua mulher, Noreen, pelo telefone celular) foram apenas a primeira parte das 11 horas de desespero que ele passou até rever os filhos em sua casa, na cidade de Oradell, em New Jersey. Como a maioria das pessoas que conseguiram deixar as torres do WTC logo depois do primeiro ataque, Tony diz que todos desciam as escadas de forma tranqüila. "A gente achava que, mesmo sendo uma bomba, a situação estava sob controle e, para mim, o que parecia mais estranho era um cheiro esquisito, parecido com o de tinta a óleo fresca", lembra o sobrevivente."No 35º andar, as pessoas pararam de descer, não sei por que, e eu fui procurar outra escada. Ali havia pessoas de andares acima do 50º e elas disseram que tínhamos sido atingidos por uma aeronave, talvez um helicóptero dos que sempre passavam em torno do prédio."O cheiro, então, deduziu Tony, era de combustível, e a situação podia ficar muito pior. "No 25º andar, ouvi um ´bum´ baixinho e a torre chacoalhou de novo", diz Tony. Naquele momento, outro jato atingia a segunda torre do WTC. "Comecei a me preocupar mesmo, pensando que aquilo não era acidente e sim um ato terrorista, mas não havia nenhum alarme soando e todas as luzes dos andares por onde passava ainda estavam acesas."Ao rememorar os minutos que ficou parado alguns andares mais abaixo, ele não consegue segurar o choro."Paramos para dar passagem aos bombeiros e, depois deles, aos policiais que, eu sabia, teriam de chegar acima do 90º andar... todos aqueles homens morreram tentando salvar vidas. Pior ainda foi ver as pessoas que pularam dos prédios para morrer mais rápido, como alguém que dá um tiro na cabeça." Ao chegar, finalmente, ao nível térreo e atravessar a ligação entre o World Trade Center e o World Financial Trade, Tony viu uma cena dantesca: "Tudo em volta estava em chamas, pedaços enormes de concreto, papéis e pedaços do que eu achei que seria um pequeno avião."Na rua, ao lado do Rio Hudson, Tony voltou a buscar contato pelo celular com Noreen e, de novo, não conseguiu. Sua mulher trabalha num edifício na parte central de Manhattan e ele sabia que ela via o que se passava na parte sul, onde ele estava.Enquanto tentava telefonar, ele procurava por colegas do escritório, mas não os encontrava. À sua volta, alguém comentou que aquilo foi um ato coordenado. Só então ele soube que a outra torre, encoberta no lugar onde ele estava pelo prédio do American Express, também fora atingida e as aeronaves usadas para o ataque eram jatos de companhias aéreas."Fui me aproximando da segunda torre e ouvi um barulho como o de papel sendo enrolado", compara Tony. "Olhei para cima e a parte superior daquela torre estava se inclinando, ia cair. Tomei a direção contrária para escapar, o prédio caiu e fui atingido pela nuvem de poeira, como se tivesse posto a cara num saco de cinza ou pó de cimento." Com o rosto coberto pela camisa, sem enxergar, ele foi tateando uma mureta ao lado do rio, caminhando em direção à ponta sul da Ilha de Manhattan. "Comecei a ouvir o som de jatos de caça, a outra torre caiu e só pude imaginar que estava acontecendo um outro ataque."Tony caminhou toda a via expressa FDR, margeando o East River, até a altura da Rua 59. Conseguiu telefonar para uma vizinha, em New Jersey. Minutos depois, como tinha o número do telefone de Noreen no sistema de rediscagem do seu celular, conseguiu falar com ela. O casal marcou encontro numa churrascaria brasileira da Rua 59. "Ela chegou antes e, mesmo quando eu estava a 50 passos dela, olhando para mim ela não conseguia me reconhecer, porque eu estava todo coberto de pó."No restaurante, ofereceram a ele um copo de uísque. "Não tinha caipirinha, porque Evaristo, o garçom que prepara, ainda não tinha chegado", ri Tony. "Pedi para trocar o uísque por uma cerveja." Na noite de sexta-feira, o brasileiro ´Antonio das Roças´ celebrava seu aniversário de casamento pensando nos amigos que perdeu no WTC - "dois deles tinham a obrigação de ficar até que todos os outros funcionários saíssem".

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