Brasileiro vira ídolo em país africano devastado por guerras

Em um país africano marcado de norte a sul por conflitos étnicos e religiosos, um brasileiro consegue fazer a população sorrir e é aclamado como herói nas ruas. O carioca Heron Ricardo Ferreira, de 48 anos, é técnico do Al-Hilal, o maior time de futebol do Sudão, que conta mais de 60% da torcida nacional. Desde que o brasileiro chegou, em maio de 2005, o clube ganhou todos os campeonatos e Heron foi eleito por dois anos consecutivos o melhor treinador do país."Eu não tinha idéia do que era a África e está sendo uma experiência muito boa trabalhar no Sudão. Como todo brasileiro, eles são apaixonados pelo futebol", relata Heron, que falou com exclusividade ao portal Estadão.com.br em sua rápida passagem pelo Rio de Janeiro na última semana, quando visitou familiares. No Sudão, onde desde 2003 milícias árabes promovem um genocídio em Darfur, na região oeste - que já deixou mais de 200 mil mortos e 2 milhões de refugiados - Heron encontrou um futebol com "qualidades medianas, muita força de vontade e uma necessidade de crescer muito grande". Em um ano e sete meses, o técnico diz ter conseguido "dar uma nova dimensão ao futebol do Sudão", obtendo o reconhecimento da torcida."A base da seleção do Sudão hoje é a minha seleção. Dos 11 jogadores titulares, nove são do meu time. A população me adora, bate palmas quando me vê nas ruas, grita, pede autógrafo. Virei um ídolo nacional", conta Heron. E não é mero convencimento de Heron. Militares brasileiros que trabalham como observadores da ONU no Sudão confirmam a adoração da população pelo técnico, que no Brasil já treinou o Juventude, Coritiba, Paysandu e Náutico, além de ter atuado como auxiliar-técnico de Vanderley Luxemburgo no Corinthians.Auxiliado por outros três brasileiros - o preparador-físico Rodolfo Maia, o fisioterapeuta Joilsom Amorim e o treinador de goleiros Valdir Bernardes - Heron promoveu uma série de mudanças no futebol do Hilal, alterando desde a alimentação até a confiança dos jogadores. "Como não há futebol de base e campeonatos amadores, os jogadores crescem sem experiência e chegam ao profissional com medo de atuarem em competições internacionais. Eu consegui quebrar isso. Meu maior feito foi mudar a mentalidade deles para jogar futebol, sem ter medo de enfrentar os outros times da África, Ásia e Europa", relata. Futebol à 50ºCComo a temperatura durante o dia é muito alta (entre 45°C e 50°C), os treinos em campo, assim como os jogos, ocorrem sempre à noite, quando os termômetros marcam por volta dos 35°C. Durante o dia, são feitos apenas trabalhos de capacitação física em uma academia e treinos leves.O clube treina em Omdurman, bairro da capital Cartum, e joga com freqüência no interior do país. Segundo Heron, o Hilal é sempre bem-recebido, até mesmo em áreas de conflito, como Darfur e Juba, e nunca esteve em situação de perigo."O Hilal chegando no interior é como o Corinthians quando, por exemplo, vai a Ribeirão Preto: é aquela multidão aguardando, gritando o meu nome e o nome dos jogadores. Somos sempre muito bem recebidos", conta o brasileiro, que em 2005 foi campeão nacional invicto e, em 2006, perdeu apenas uma partida, para o rival Al-Mahieck.Heron reclama, no entanto, de uma disputa política entre o presidente de seu clube e o da Federação Sudanesa de Futebol, porque este "impõe regras retrógradas" aos clubes do país. Um exemplo é o número limitado de jogadores: enquanto times da África jogam com 35 atletas, no Sudão cada clube pode ter no máximo 23, prejudicando o país em competições internacionais. "Em 2006, eu quebrei todos os recordes do Hilal, porque um treinador ficava pouco tempo lá, três ou quatro meses. Eu estou há dois anos e renovei por mais um. No campeonato nacional de 2006, de 22 partidas, ganhamos 18, empatamos três e perdemos só uma, justamente no período em que jogamos 10 jogos em 35 dias em quatro competições, duas nacionais e duas internacionais. Com um número desproporcional de jogadores em relação aos outros países africanos, não tem como competir. Meu objetivo para 2007 é vencer uma competição internacional", revela o brasileiro.Dia-a-diaHeron conta que o Sudão está em evolução acelerada, principalmente na capital. Com "obras para todos os lados", Cartum contrasta, muitas vezes lado a lado, prédios espelhados de até dez andares com pobreza e casebres de papelão. A área urbana da capital é pequena, correspondendo a um bairro de São Paulo, como o Pacaembu. Nas ruas, a maioria dos veículos é de grande porte, como caminhonetes e jipes. Somente as ruas centrais são asfaltadas, enquanto todas as outras são de barro.Não há grande variedade de alimentos à disposição, como frutas e verduras. E, quando há, são caros. E nem MacDonald´s há no Sudão, relata Heron. A alimentação da população é baseada em pão, condimentos, carne de carneiro e no "full", um prato tradicional sudanês, que, segundo o brasileiro, "é tipo uma papa de feijão com uma farofa", comido principalmente às sextas-feiras, dia sagrado para os muçulmanos.Heron, que vive com a família em Cartum, diz que não tem nada a reclamar do dia-a-dia no país. "Eu particularmente tenho uma vida excelente. Vivo em uma casa com piscina, quadra de tênis e internet banda-larga", diz. A mulher, Adriana, era gerente de banco no Rio e largou o emprego para acompanhá-lo na África. O casal tem uma filha de dois anos, que já aprende na escola inglês e árabe.A família está aos poucos se acostumando com as diferenças étnicas e religiosas. "Minha mulher ainda está se adaptando. Um exemplo é a academia. Mulheres vão malhar na segunda, quarta e sábado e, em terça, quinta e domingo, vão os homens. Eles não se misturam", relata.Processo de pazEm dois anos no Sudão, Heron diz que nunca sentiu o país tão integrado em busca de um processo de paz e que na capital, onde vive, o único momento em que houve violência explícita foi em agosto de 2005, quando o vice-presidente do Sudão, John Garang, morreu em um acidente aéreo. Garang era um popular líder do Movimento Popular de Libertação do Sudão (SPLM) e havia se comprometido em um acordo para pôr fim a 21 anos de guerra civil no sul do país, que, cristão, busca a separação do norte, de maioria muçulmana.O técnico conhece 19 militares brasileiros que trabalham como observadores das Nações Unidas no país e que visitam com freqüência a sua casa em Cartum. "Minha casa virou um point de encontro dos brasileiros no Sudão. Sempre que dá a gente faz um churrasquinho, joga futebol ou tênis. Quando chega um novo brasileiro lá, é para minha casa que eles levam. Até o novo embaixador brasileiro no Sudão, Hélio Magalhães de Mendonça, já jantou na minha casa", orgulha-se Heron.Apesar de recente - o embaixador chegou ao Sudão no fim de 2006 - a relação diplomática entre os dois países já tem dado alguns resultados. Em dezembro, o país africano conseguiu apoio do Brasil para não ser condenado na ONU por violações aos direitos humanos e prometeu que a atitude do governo Lula será compensada. A retribuição deve ser concretizada com a assinatura de contratos de exploração de petróleo com a Petrobras e negócios no setor de açúcar. No que depender das relações diplomáticas e comerciais entre os dois países, a tendência é que Heron passe a receber ainda mais brasileiros para seus churrascos.

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