Brasileiros faturam alto no mercado angolano

Bons salários e escassez de produtos atraem empresários e profissionais liberais

Mariana Della Barba, enviada especial de O Estado de S. Paulo,

18 Dezembro 2007 | 15h16

Ao entrar no shopping, o letreiro do Bob's chama a atenção. Contornando a praça de alimentação, cartazes no cinema anunciam Cidade dos Homens. Caminhando pelo corredor, passa-se por uma Ellus, uma livraria Nobel, uma loja Mundo Verde e outra que vende roupas da Vide Bula. No alto-falante, Ivete Sangalo. Então, é preciso ouvir o sotaque das pessoas ao redor para lembrar que a cena não se passa num shopping de São Paulo, Rio ou Salvador, mas no Belas Shopping, em Luanda.   África, um continente em transformação China vai à África e muda o continente A África que prospera: Angola vive ‘milagre econômico' Meninos-soldados tentam esquecer a infância Darfur é retrato da velha África Zimbábue de Mugabe vai na contramão Vítimas da guerra: violência sexual ainda é epidemia Imagens da África   Localizado no bairro chique da capital angolana, em Luanda Sul, o shopping reflete a maciça e crescente presença de brasileiros no país - já são mais de 20 mil, atraídos por salários polpudos e oportunidades num mercado carente, além da óbvia facilidade da língua. As vantagens compensam o alto custo de vida de Luanda - o maior do mundo para estrangeiros, segundo a consultoria ECA International.   Um webmaster baiano conta que seu salário é de US$ 3.500 mais US$ 500 para alimentação, além do aluguel pago. O diretor da Mundo Verde, Jorge Eduardo Antunes, diz que com o crescimento de 12% ao mês, abrirá uma segunda loja de produtos naturais em abril e pretende inaugurar outras três nos próximos anos. O engenheiro carioca Antonio Pinto Neto, consultor de uma empresa multinacional, revela que seu salário em Luanda é 120% maior do que ganhava no Brasil.   O cenário para exportadores também é atrativo. No ano passado, empresas brasileiras venderam para Angola o equivalente a US$ 836 milhões, um aumento de 60% em relação a 2005. Entre as mercadorias mais exportadas estão açúcar, tubos de aço e ferro, tratores, carne, fios e equipamentos elétricos, além de celulares - item venerado pelos angolanos. Entre as gigantes brasileiras em território angolano está a pioneira Odebrecht, que chegou no país em 1984 e cujo nome estampa nove entre dez capacetes de operários em Luanda, além da Petrobrás, Furnas e Vale do Rio Doce.   No total, as empresas brasileiras já são responsáveis pela geração de 10% do PIB do país africano, estimado pelo FMI em US$ 61 bilhões. E a perspectiva de crescimento é ainda maior ao levar-se em conta a linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para auxiliar empresas brasileiras atuando no setor de infra-estrutura angolano. Até 2008, serão US$ 2,2 bilhões, turbinados pelo US$ 1 bilhão anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em outubro, durante visita a Luanda.   Eldorado   Várias razões explicam esse recém-descoberto eldorado para os produtos do Brasil. Duas delas estão presentes em todas as respostas. A primeira é a escassez generalizada de mercadorias no país. Após 27 anos de guerra civil, Angola não produz praticamente nada. "Aqui, tudo que colocamos na prateleira vende", conta a nutricionista carioca Camila de Araújo Prata, gerente da loja Mundo Verde no Belas Shopping. Nas gôndolas dos supermercados há arroz da China, bolachas do Brasil, sucos de Portugal, escovas da Coréia e praticamente nada de produção local.   A segunda razão é o encanto do consumidor angolano por tudo que vem do Brasil. "Eles admiram muito os brasileiros e esse componente afetivo ajuda a aceitação de nosso produtos lá", explica Flávio Maia, diretor de marketing e franquias do Bob's, que tem duas lanchonetes em Luanda. "Para atuar em Angola, não se pode chegar com propostas fechadas, é preciso criar soluções alternativas e ser flexível. E nada disso é um problema para o empresário brasileiro", explica Juarez Leal, coordenador da Agência Brasileira de Promoção de Exportação e Investimentos (Apex).   A óbvia afinidade lingüística também ajuda. As novelas da Globo e da Record, que têm canais fechados na TV angolana, são responsáveis por 40% da audiência. As roupas de Bebel, personagem interpretada por Camila Pitanga na novela global Paraíso Tropical, viraram febre no país. Tudo isso faz com que as companhias brasileiras não precisem alterar os produtos vendidos em Angola. No Bob's, por exemplo, a única diferença é que o milk-shake é chamado de "batido".   Na Ellus do Belas Shopping, a gerente Sonia do Rego conta que "as angolanas são um pouco mais discretas, preferem cores mais neutras". Já no cinema, a principal diferença é que o angolano não aprecia filmes de guerra. "Eles preferem comédias, romances e suspense. Creio que a restrição a filmes violentos seja por causa da guerra civil, que ainda é muito recente na memória dos angolanos", explica Fraklin Costa Mônaco, diretor do Cineplace, também no shopping.

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