Brasileiros lucram com chavismo

Bem-vistas por Chávez, empresas nacionais investem na Venezuela mesmo em meio a onda de nacionalizações

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2009 | 00h00

"Estamos numa fase de nacionalização de empresas. Menos das brasileiras", disse o presidente venezuelano, Hugo Chávez, em maio. A declaração causou indignação em Buenos Aires um mês depois de Chávez nacionalizar a Sidor, empresa do grupo argentino Techint. "As brasileiras são diferentes, elas se aproximam da sociedade, das comunidades. As argentinas não se acoplaram ao socialismo", explicou o embaixador da Venezuela na Argentina, Arévalo Méndez. A pergunta, porém, é inevitável: se até a aliada Cristina Kirchner foi afetada pelas nacionalizações, há garantias para os brasileiros? Um fenômeno que causa surpresa é que, enquanto as nacionalizações afastam da Venezuela empresas americanas e europeias, o Brasil é um dos países que mais lucram com o chavismo. Desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu, as vendas do País para a Venezuela aumentaram 860% e os venezuelanos passaram do 18º para o 7º lugar entre os principais destinos das exportações brasileiras. Com uma produção interna pífia, a Venezuela hoje compra do Brasil de celulares a bois vivos. E graças à assimetria dessa parceria comercial - ela importa dez vezes mais do que exporta -, respondeu por quase 20% do superávit brasileiro em 2008, sendo o país que mais contribuiu para esse saldo depois da Holanda, porto de entrada de produtos para a Europa. As empresas brasileiras também tomaram nos últimos anos a contramão das de outros países. Até 2006, poucas se arriscavam na Venezuela. Hoje, os investimentos no país somam US$ 15 bilhões. Em 2007, a Gerdau comprou a terceira maior produtora de aço venezuelana, o Grupo Ultra adquiriu uma fábrica de produtos químicos, a Braskem anunciou projetos de mais de US$ 4 bilhões e a Alcicla associou-se a uma empresa venezuelana de reciclagem de alumínio. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial abriu um escritório em Caracas, em 2008, e ainda neste mês levará à Venezuela 25 empresários dispostos a fornecer matéria-prima, serviços e investir no país.Isso sem falar nas empreiteiras (prestadoras de serviço). Em setembro, a Andrade Gutierrez firmou um acordo para erguer uma siderúrgica de US$ 1,8 bilhão. Entre os projetos da Odebrecht estão a gigantesca Hidrelétrica de Tocoma, a ampliação do Metrô de Caracas e uma associação com a PDVSA Engenharia e Construções. Para garantir as parcerias em tempos de crise, o BNDES liberará US$ 4,3 bilhões em créditos para Chávez importar bens e serviços do Brasil. Desde que ele firmou o acordo com o BNDES, em 1997, havia recebido US$ 500 milhões. O Estado entrevistou acadêmicos, diplomatas e empresários nos dois países para entender o que levou o Brasil a aumentar sua presença econômica na Venezuela. A conclusão é que dois fatores contribuíram para esse processo. O primeiro diz respeito à importância estratégica do Brasil para Chávez. "As importações brasileiras cresceram porque Chávez ordenou: comprem do Brasil", disse um diplomata. "O comércio exterior na Venezuela segue critérios políticos, não há como negar." Ao declarar guerra ao setor privado nacional e aos EUA, Chávez teve de buscar novas parcerias. "Pelo seu peso econômico e político, o Brasil é o único na região capaz de dar a Chávez apoio necessário para ele tocar seu projeto", disse Pedro Silva Barros, professor de economia da PUC-SP, especialista em Venezuela. "Hoje, as relações com o Brasil são essenciais para a estabilidade política do governo venezuelano."O leite e o frango do Brasil vão parar nos Mercais, os mercados estatais, ajudando a frear a escassez de produtos básicos para os mais pobres, base eleitoral de Chávez. A Hidrelétrica de Tocoma, de US$ 3 bilhões, é um dos eixos da estratégia para combater os apagões. E Chávez ainda tem planos de erguer 200 indústrias com ajuda brasileira. "Não dá para brigar com os EUA e o Brasil ao mesmo tempo", disse um exportador.Já a segunda causa do aumento da presença brasileira está relacionada ao fato de as empresas se sentirem seguras por estar, em geral, fazendo negócio com o próprio Chávez, não com o setor privado. Elas ganham contratos milionários, associam-se a estatais ou fazem delas seu principal cliente. "O governo compra 85% dos alimentos brasileiros exportados para a Venezuela", afirmou Fernando Portela, da Câmara de Comércio e Indústria Venezuelano-Brasileira (Cavenbra). Às vezes, o produto brasileiro é embalado e processado, chegando às prateleiras como "produto venezuelano". "Tinha uma época em que até a foto do Chávez eles punham na embalagem", disse Portela. Os empresários são pragmáticos e evitam o tema político. Tudo por um bom negócio. E o bom negócio, no caso, é garantido pela abundância de algumas matérias-primas e a existência de um mercado forte, cuja demanda não é suprida internamente, como explica Sergio Thiesen, diretor da Braskem. Muitas grandes empresas e empreiteiras estão acostumadas a atuar em lugares instáveis da África, Ásia e Oriente Médio. "Na Venezuela, há a vantagem da proximidade física e cultural", disse Thiesen.Chávez costuma se reunir com empresários do Brasil para pedir investimentos. O diretor da Odebrecht na Venezuela, Euzenando Azevedo, é tido como seu "homem de confiança". Em 2008, quando o Equador expulsou a Odebrecht, Chávez saiu em sua defesa. "Na Venezuela, essa empresa tem se comportado bem", disse, lembrando que ela não participou da greve geral em 2002.OPORTUNIDADESO "tratamento preferencial", segundo analistas, também cria oportunidades para os empresários brasileiros, que podem comprar a preços baixos ativos de empresas apressadas para deixar a Venezuela. Por sua fábrica em Zulia, com um faturamento estimado em US$ 30 milhões, o Grupo Ultra pagou à americana Arch US$ 7,6 milhões. "O problema, mesmo para os brasileiros, é que Chávez é instável e, na Venezuela, não há instituições que garantam os contratos", disse o analista venezuelano Maxim Ross. "Acho difícil que as brasileiras sejam nacionalizadas no médio prazo porque elas são bem-vistas por Chávez e há uma parceria estratégica, mas é impossível prever o que aconteceria com uma mudança de governo no Brasil, por exemplo", afirmou Francine Jácome, do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e PolíticosHá dois anos, quando Chávez mudou as regras para a exploração de petróleo, o lucro da Petrobrás no país caiu 42,7%. "Se decidir nacionalizar, ele nacionaliza. Não há o que fazer", disse um executivo. "Chávez tem um projeto socialista e o risco existe. Enquanto isso, trabalhamos e fazemos negócio."

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