Celso Junior/AE-20/4/2007
Celso Junior/AE-20/4/2007

Brasileiros lucram sob regime chavista

Empresas como a Odebrecht exploram ao máximo as oportunidades criadas pelo chamado ''socialismo do século 21'' na Venezuela

Humberto Márquez, Interpress, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2010 | 00h00

Pontes, estradas, petroquímicas, siderúrgicas, usinas elétricas, aquedutor, agricultura, frigoríficos, estaleiros e até teleféricos: o poderoso braço empresarial do Brasil chegou no Caribe, via Venezuela, onde o governo Hugo Chávez está empenhado em criar o que denomina "socialismo do século 21".

"As empresas de construção brasileiras trabalham sem problemas com o governo venezuelano porque por trás delas está o governo brasileiro e sua política de integração, com o acordo entre ambos os países e o BNDES brasileiro", disse à Interpress o diretor da Câmara Brasileira Venezuelana de Comércio e Indústria, Fernando Portela.

Historicamente, a Venezuela construiu sua infraestrutura apoiada pelas exportações de petróleo. O ciclo de alta dos preços internacionais do petróleo nesta década deixou seu poderoso vizinho do sul numa posição vantajosa para oferecer serviços na área de engenharia e criar parcerias nos setores do comércio e da indústria pesada.

"Há interesse das empresas brasileiras em explorar ao máximo as possibilidades oferecidas pelo complexo industrial e o mercado da Venezuela, adquirindo empresas ou fazendo parcerias, e para eles o norte do Brasil, a Venezuela e o Caribe formam uma importante área de negócios", disse Portela.

Um aspecto importante desta presença é que as empresas brasileiras não foram afetadas pelo processo de nacionalização de empresas iniciado em 2007 pelo presidente venezuelano.

Esse processo se intensificou este ano com a estatização de 220 empresas, estrangeiras e domésticas - incluindo setores em que o Brasil é líder, como o químico, de aço e de construção.

Exceção. Em 26 de maio de 2009, durante encontro entre o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Salvador, Bahia, numa reunião privada entre os dois chefes de Estado, como os microfones estavam ligados por acaso, os jornalistas que cobriam o encontro ouviram Chávez dizer a Lula : "Estamos numa fase de nacionalização de empresas, exceto as brasileiras."

E, ironicamente, Chávez disse que exortara Emílio Odebrecht, responsável pela gigante brasileira a aderir à causa socialista. "Conversei com Don Emílio para tentar convencê-lo a aderir ao socialismo. Ele riu e sua resposta foi "não", disse o venezuelano.

Mas a empresa de Emílio Odebrecht tem pelo menos 15 projetos de infraestrutura na Venezuela que somam bilhões de dólares. "Com ou sem Chávez", vamos trabalhar aqui por pelo menos mais dez anos", disse o empresário venezuelano Luis Berlioz. Sua empresa, a Comopa, trabalha com os brasileiros no setor de produtos de concreto.

O projeto emblemático - e mais visível - é a segunda ponte sobre o Rio Orinoco. Com pouco mais de três quilômetros, o arco e suas rampas de ligação e estradas foram construídos entre 2001 e 2006 ao custo de US$ 1,28 bilhão. Só a ponte ficou em US$ 886 milhões, embora o orçamento estimado originalmente fosse de US$ 480 milhões.

A ponte beneficia os 2 milhões de moradores do sudeste do país, e por causa de sua localização próxima a Ciudad Guayana, uma cidade industrial a 500 quilômetros de Caracas, ela é uma importante ligação com os portos caribenhos do nordeste.

São milhões também os beneficiados por outros projetos dos quais a Odebrecht participa, como a barragem de Tocoma, com o custo estimado de US$ 3 bilhões, que, quando for concluída, adicionará 2 mil megawatts aos 14 mil que estão sendo produzidos pela hidrelétrica do Rio Caroní, a sudeste do país.

Transporte. A Odebrecht está construindo também novas linhas de Metrô em Caracas e cidades vizinhas, um sistema combinando trens subterrâneos e ônibus, como também toda a infraestrutura de uma estação de tratamento de água a leste da capital e em Maracaibo, como também o Metrocable, sistema de teleféricos para os bairros situados nas regiões altas de Caracas.

A empresa brasileira também está construindo 11 mil casas populares no sudeste do país, uma nova usina petroquímica, várias docas e uma terceira ponte sobre o Rio Orinoco.

Camargo Correa, outra construtora brasileira, está trabalhando no Rio Tuy, que fornece água para Caracas. O projeto de US$ 476 milhões faz parte de um projeto maior que tem como objetivo melhorar os sistemas de saneamento básico e aumentar a capacidade dos aquedutos.

No Estado de Zulia, a noroeste da Venezuela, a empresa brasileira Gerdau opera a siderúrgica de Suzuca desde 2007, que produz 300 mil toneladas de aço bruto e 200 mil laminados TM por ano.

Nessa área também opera a empresa Oxiteno, que tem uma fábrica de produção de agentes tensoativos usados em detergentes, cosméticos, tintas e têxteis. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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