''Brasileiros perseguem índios'', diz boliviana

Ativista indígena de Pando culpa mercenários por mortes no país

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

04 de outubro de 2008 | 00h00

Norah Montero, uma das ativistas indígenas do Departamento (Estado) de Pando, afirmou ontem que criminosos brasileiros estariam perseguindo líderes indígenas na Bolívia e estuprando sobreviventes da onda de violência que deixou 18 mortos na região no início do mês. Norah, que perdeu o marido nos violentos protestos entre opositores e partidários do governo, recebeu ajuda financeira do presidente Evo Morales para comparecer ontem na sede da ONU. Ela testemunhou diante dos órgão de direitos humanos e disse que uma nova fossa com corpos havia sido encontrada.A ativista pediu que o governo brasileiro entregue os criminosos que tenham fugido para o Acre - segundo estimativa de líderes indígenas, cerca de 600 pessoas se refugiaram no Brasil durante o período de conflito. Os protestos mais violentos ocorreram em Pando e obrigaram o governo a decretar estado de sítio na região.Os líderes indígenas querem que o estado de sítio seja ampliado para outras partes do departamento para dificultar a ação dos bandidos. "Ainda estamos sendo ameaçados", disse Norah. "Parte dos brasileiros que atuaram na matança fugiu para o Brasil diante da presença do Exército boliviano, mas outros foram para regiões próximas a Pando onde o estado de sítio não está declarado." Norah afirmou que os brasileiros que atuaram como mercenários estavam vestidos com uniformes da polícia e usavam máscaras. Na época, o governo alegou que esses brasileiros estavam entre os atiradores contratados pela oposição. Já o presidente do Movimento de Grupos Guaranis da Bolívia, Pedro Nuni, não descarta a possibilidade de que esses brasileiros sejam traficantes.Peritos da ONU estão em Pando investigando a situação, à pedido da Bolívia. Um relatório inicial será apresentado em março de 2009. As avaliações da ONU ocorrem juntamente com as da União das Nações Sul-americanas (Unasul). RECONHECIMENTOA onda de violência na Bolívia foi registrada em meio aos protestos promovidos durante três semanas por líderes da oposição, que exigiam o reconhecimento das autonomias regionais obtidas em referendo popular. Além disso, eles reivindicavam a restituição de um imposto sobre gás e petróleo e a revisão do projeto de nova Carta impulsionado por La Paz e rejeitado pelos opositores. A polarização política obrigou governistas e opositores a estabelecerem uma mesa de negociações para pôr fim à crise.Os governadores opositores de quatro dos nove Departamentos bolivianos confirmaram que participarão amanhã das negociações para um acordo com Evo. O anúncio foi feito pelo governador de Tarija, Mario Cossío, representante da oposição, dias após a suspensão do diálogo por causa da prisão de um dirigente civil. Cossío confirmou a participação horas depois de Evo ter afirmado que domingo seria a data definitiva para chegar a um acordo. As negociações duram mais de duas semanas e buscam encontrar uma saída para as questões que dividem o país.

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