Brasileiros prevêem massacre na Basílica e no QG de Arafat

Os dois maiores focos de tensão, na avaliação de dois membros do Fórum Social Mundial, Paulo Suess e José Arbex Jr. - que chegaram nesta segunda-feira ao Brasil vindos do Oriente Médio, após cumprir missão humanitária de cinco dias na região dos conflitos - estão localizados no Quartel General (QG) do presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, em Ramallah, e na Basílica da Natividade, em Belém. Nos dois locais, brasileiros estão na linha de tiro das tropas de Israel.No QG, Arafat está confinado com cerca de 60 de seus homens e outros 40 voluntários internacionais, entre eles o membro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Mário Lill. Na Basílica, outras 260 pessoas estão encurraladas, entre monges franciscanos, militares palestinos e o governador de Belém e seus assessores.Ali, também está o frei brasileiro Antonio Marcos Koneski. "O massacre nesses dois locais é iminente", estimou Arbex Jr. "Aguardam apenas a saída do enviado dos Estados Unidos, Colin Powell, para invadir os dois locais e matarem a todos", adicionou Suess.Segundo Arbex Jr., Lill pode ser considerado prisioneiro de guerra, e sua saída de Ramallah está praticamente impossibilitada. "Tivemos o auxílio da Embaixada do Brasil em Jerusalém para que Lill deixasse o QG e fosse diretamente para o aeroporto, sem passar pelas humilhações do Exército de Israel. No entanto, o governo local afirmou que, ao sair, ele terá de ser algemado e interrogado, e assim ele não sai", esclareceu.Em seus encontros com palestinos e israelenses, os membros do Fórum Mundial identificaram três pontos consensuais para a busca de uma solução diplomática ao conflito na região. "Um plano de paz teria que contemplar o retorno às fronteiras estabelecidas em 1967; o status de Jerusalém como capital binacional; e o direito ao retorno dos refugiados palestinos", listou Arbex Jr.A aplicação desse plano, no entanto, seria praticamente impossível com a permanência de Sharon à frente do governo, dizem os dois. "Ouvi uma frase lá que diz se muito: ´Existe uma fábrica de homens-bomba na Palestina, e o dono é Ariel Sharon´", relatou o jornalista. "Ele é inimigo dos palestinos e dos israelenses."O Fórum Mundial levará relatórios sobre a missão em seu próximo encontro, marcado para o fim de abril em Barcelona, na Espanha. A intenção é viabilizar a realização de um fórum na Palestina, no segundo semestre deste ano. "O Sharon não vai aceitar, mas vamos lutar para que esse encontro ocorra" garantiu o jornalista.Simultaneamente, o Fórum Social estuda a possibilidade de realizar no Brasil um julgamento de Sharon por crimes de guerra, com a presença de autoridades reconhecidas mundialmente pelos seus conhecimentos sobre os direitos humanos. "Será um processo simbólico e político. O julgamento de Sharon deve ser feito em Haia, na Holanda", explicou Arbex Jr. Ramallah, na Cisjordânia, é uma cidade devastada, infestada de tanques de guerra e veículos blindados israelenses que passam pelas ruas a derrubar e triturar tudo o que o que estiver pela frente, como imóveis, muros, automóveis e postes de luz.O relato aterrorizante foi feito por Suess e Arbex Jr., que cumpriram a missão humanitária em companhia de outros dois membros canadenses e dois franceses, também do Fórum."Virou uma luta de Davi contra Golias", resumiu Suess, representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e da Cáritas Brasileira, utilizando a analogia bíblica para explicar a relação entre israelenses, mais fortes, e palestinos, mais fracos."Trata-se de uma punição coletiva, de um povo inteiro" complementou o jornalista Arbex Jr. A delegação esteve presente em Jerusalém e Ramallah. Tentou chegar a Belém, mas foi impedida porque a cidade enfrenta toque de recolher e está totalmente isolada.Fizeram, então, uma passeata, no último sábado, para tentar entrar em Jenin, ao norte de Jerusalém, onde no dia 2 de abril aconteceu um suposto massacre de palestinos em um campo de 15 mil refugiados. "A passeata contou com a presença de 6 mil pessoas. Tínhamos 40 caminhões com comidas, remédios e outros tipos de mantimentos, mas Israel impediu nosso ingresso", relatou o jornalista.Até esta terça-feira, o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon não havia permitido a entrada da Cruz Vermelha Internacional no campo de refugiados, onde estimam que os mortos podem chegar a 400 pessoas. Israel diz que até agora só foram encontrados 15 corpos."Ninguém pôde entrar em Jenin até ontem. Se eram apenas 15 vítimas, porque o governo israelense não permitiu a vistoria do campo? Ninguém sabe o que fizeram nesse tempo", opinou Arbex Jr.Os dois observadores descreveram o ambiente tenso vivido tanto pela população palestina quanto israelense. "Se você estiver em um café em Jerusalém e, sem querer, bater uma porta mais forte, haverá pânico dentro do estabelecimento. Os israelenses temem os atentados de um lado, e os palestinos estão revoltados e em clima de desespero do outro", narrou o jornalista."Tivemos reuniões com os dois lados", afirmou Arbex Jr. "Não há, de nossa parte, nenhum sentimento de anti-semitismo", completou Suess, para garantir que, embora tenham um posicionamento solidário aos palestinos, os membros do Fórum Mundial procuraram ouvir os dois lados antes de relatar os acontecimentos que presenciaram.

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