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Brasileiros residentes em países da Primavera Árabe relatam situação

Para brasileiros que vivem em lugares como Arábia Saudita e Jordânia, processo não afetou cotidiano da sociedade

Christina Stephano de Queiroz, do estadão.com.br,

17 de dezembro de 2011 | 19h57

SÃO PAULO - Apesar da situação conturbada em lugares como Iêmen e Síria, brasileiros que vivem em países da região, como Jordânia, Líbano, Arábia Saudita e Marrocos garantem que as movimentações não causaram impactos relevantes no cotidiano. Além disso, afirmam que há um exagero da imprensa com relação à real situação dos países onde vivem - embora, nesses casos, sejam locais com confrontos bem menos violentos que em outros.

 

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Esta é a opinião de Roberta Cecilia Meireles Santana, baiana que mora há dois anos em Beirute, capital do Líbano. Ela assegura que o cotidiano na cidade segue tranquilo, apesar das tensões na Síria, país vizinho e com forte influência na política local. "Nunca presenciei eventos violentos desde que as revoltas começaram. Vejo notícias na imprensa e escuto as pessoas comentarem, mas nada que afete meu cotidiano", diz.

 

De acordo com a brasileira, que dá aulas de capoeira e samba de roda em Beirute, a única mudança que observou foi que alguns amigos que costumavam passear na Síria deixaram de ir, com medo da violência no país, segundo ela.

 

Tensão e futebol

 

A música e cantora Lívia Lucas, que viveu em Marrakesh, no Marrocos, e atualmente está na Espanha, diz que também não observou tensão na cidade nos últimos meses. No dia das eleições, segundo ela, havia muita gente na rua fazendo música e comemorando, mas nenhuma situação de violência.

 

"O único dia tenso do qual me lembro foi quando o time do Marrocos ganhou um torneio importante. Na ocasião, havia gente na rua praticando atos de vandalismo", observa. Lívia comenta que os marroquinos estão todo o tempo tentando se informar sobre a situação nos países árabes, porém a tensão transparece somente na imprensa, e não no cotidiano das pessoas.

 

Vivendo há oito anos na Arábia Saudita, Adriana Berkenbrock, coordenadora acadêmica do departamento de inglês da Universidade Federal de Riad, concorda que as movimentações nos países árabes não afetaram sua vida. "Houve boatos e rumores de que as revoluções chegariam à Arábia Saudita. Mas não passaram de rumores", afirma. De acordo com ela, quando começaram os protestos nos países vizinhos, o rei Abdullah estava nos Estados Unidos fazendo um tratamento na coluna.

 

"Um pouco antes de ele regressar, as pessoas disseram que ocorreriam protestos, mas acabou acontecendo o contrário", conta Adriana. Isso porque, de acordo com ela, o governo criou um pacote de ajuda à população que incluía auxílio-desemprego, recursos para pagamento de moradia, entre outros. "Assim, no dia da sua chegada, muita gente saiu na rua para celebrar a volta do rei", destaca.

 

Censura

 

Adriana assegura que a censura no país não é tão radical quanto a mídia ocidental faz crer. Ela conta que os canais de televisão e a imprensa sempre mostram as manifestações e protestos nos países vizinhos, sem nenhum tipo de corte. "Tanto a população como o governo se posicionam contra ditadores como o da Síria", explica. Casada com um jordaniano, a fotógrafa Daniela Sandrini vive entre o Brasil e Amã, capital do país. "Eu acompanho a imprensa do Brasil e do mundo e, de forma geral, acho que existe um exagero sobre a real situação nos países árabes", opina. Ela lembra que, entre o final de 2010 e o começo deste ano, diversos jornais disseram que a Jordânia seria a próxima a explodir em protestos. No entanto, apesar do alarde, as manifestações ocorridas no país até agora "têm a dimensão dos protestos na Câmara dos Vereadores em São Paulo, ou seja, não representam a opinião da maioria da população".

 

"Há protestos que pedem redução no preço dos alimentos, fomento à indústria local e aumento dos direitos dos jordanianos. Porém, em geral, as pessoas adoram o rei", acredita. Ainda de acordo com Daniela, os jordanianos não são tão questionadores e politizados como os egípcios, por exemplo. No entanto, ela observa que alguns empresários estão temerosos quando à contratação de novos funcionários, já que "há uma insegurança com relação à situação da Jordânia no futuro".

 

Surpresa

 

Lívia Maria Macedo, designer de interiores que hoje vive em Belo Horizonte, estava no Cairo quando a revolução explodiu. No Egito desde julho de 2010 para fazer um estágio em arquitetura, ela conta que seu plano inicial era regressar ao Brasil no final de fevereiro.

 

Os protestos contra Mubarak, no entanto, fizeram com que ela adiantasse o retorno em um mês. "Quando a revolução estourou, não sabíamos ao certo o que estava acontecendo. O governo cortou o acesso à internet e a televisão estatal só mostrava notícias em árabe. Foram dias de tensão", lembra Lívia.

 

De acordo com ela, mesmo com o descontentamento dos seus colegas egípcios com o governo de Mubarak, a revolução não era esperada.

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