Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

Brasileiros trocam férias por funeral de Fidel

Turistas e estudantes dizem que é especial estar em Cuba durante homenagens a líder morto

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2016 | 05h00

O brasileiro Denis Zanatta planejou suas férias há um mês e acabou aterrissando no sábado em uma Havana que se preparava para o funeral de Fidel Castro, o líder que moldou a identidade do país por cinco décadas. 

“É um momento histórico para estar em Cuba. Nunca vou poder estar em um lugar como este vivendo o que estou vivendo”, disse Zanatta, que é cinegrafista e registrava com sua máquina fotográfica imagens da multidão reunida ontem nos arredores da Praça da Revolução para prestar a última homenagem ao líder revolucionário.

Zanatta e sua mulher, Miriam Casos, ficarão em Havana até amanhã e depois irão para Varadero. O casal gaúcho Clarinda e Flávio Hirt chegou à capital cubana no domingo, menos de 48 horas depois do anúncio da morte de Fidel. Apesar de o luto oficial ter levado ao fechamento de casas de espetáculos e de música, Clarinda disse que o sentimento de participar de um momento histórico deu um caráter especial à viagem. 

Na manhã de ontem, o casal posava para fotos em frente ao monumento José Martí, na Praça da Revolução, pelo qual centenas de milhares de cubanos passaram no dia de ontem para homenagear Fidel. Os dois estavam em um grupo de 16 brasileiros, que também terminarão a visita em Varadero. Com difícil acesso à internet na ilha, o gremista Hirt queria saber se o time rival Inter havia perdido no domingo, o que o aproximaria da queda para a segunda divisão. 

O mato-grossense Renan Braga, de 24 anos, estuda na Escola Internacional de Cinema e Televisão de Cuba, em San Antonio de los Baños, a uma hora de Havana. Ontem, ele e dezenas de outros estudantes foram de ônibus à capital para participar da cerimônia de despedida de Fidel. Segundo ele, 18 brasileiros estudam cinema na instituição.

“Queria presenciar esse momento histórico. Fidel é um dos últimos protagonistas do século 20”, disse Braga. “O século 20 terminou agora.” O estudante disse ter ficado “intrigado” com a reação dos cubanos à morte do líder. “Não foi uma reação emocional e a sensação nas ruas é de normalidade.” 

Mas Braga disse que é possível perceber o respeito dos cubanos em relação a Fidel. Segundo ele, o maior sinal desse sentimento é a ausência da música nas ruas. “A música é uma característica do povo cubano, que é muito histriônico e agora está um pouco calado.” 

O silêncio também foi o principal elemento da reação dos cubanos ressaltado pelo embaixador do Brasil em Cuba, Cesario Melantonio. “Há um profundo sentimento de tristeza entre os cubanos”, observou. Para o embaixador, a morte do líder não deverá provocar mudanças no país. “Raúl Castro está há dez anos no comando e a estrutura de poder está montada.”

 

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