Brasília e aliados admitem 'impasse democrático'

Às vésperas da primeira reunião do Mercosul sem o Paraguai, vizinhos tentam administrar crise aberta por impeachment

LISANDRA PARAGUASSU, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h04

Às vésperas da primeira reunião do Mercosul sem o Paraguai, representantes de Argentina, Brasil e Uruguai admitem que há um "impasse democrático" com o vizinho.

Convicto de que não houve ruptura da democracia e sem intenção de negociar uma antecipação das eleições, o novo governo paraguaio não dá aos demais membros do Mercosul nenhuma margem para terminar com a suspensão do Paraguai do grupo, sob pena de desmoralizar completamente a cláusula democrática assinada por todos no Protocolo de Ushuaia.

Na melhor das hipóteses, o Paraguai ficará fora do Mercosul até julho de 2013, quando está prevista para ocorrer a primeira reunião depois das eleições paraguaias, marcadas para abril.

Apesar da resistência da presidente Dilma Rousseff, que gostaria de isolar o Paraguai apenas politicamente, os reflexos econômicos de tanto tempo fora do Mercosul são inevitáveis. O governo brasileiro já decidiu que não tomará medidas drásticas como fechar a Ponte da Amizade ou suspender a venda de produtos estratégicos para o país vizinho, como fez a Venezuela ao cortar o fornecimento de petróleo aos paraguaios. No caso do Brasil, 50% da gasolina consumida no Paraguai é da Petrobrás, assim como 100% do querosene de aviação.

Ainda assim, o estranhamento político com o novo governo paraguaio vai levar inevitavelmente a uma redução nos programas de cooperação ou ajuda ao país.

Sem contatos presidenciais não há clima, por exemplo, para que sejam abertos novos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras no Paraguai ou que novos projetos conjuntos sejam assinados.

Apesar de não querer estrangular o Paraguai e não anunciar oficialmente que não reconhece o novo governo, a presidente Dilma não pretende aceitar o pedido de reunião bilateral feito por Federico Franco, sucessor de Fernando Lugo, deposto na sexta-feira.

Rigor. Ainda não foi descartada a possibilidade de se adotar medidas mais duras, que seriam tomadas pelo Mercosul como um todo e também pela União das Nações Sul-americanas (Unasul), onde alguns países - especialmente Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela - têm ameaçado adotar ações mais duras contra o Paraguai. As decisões, no entanto, terão de ser tomadas em conjunto nas reuniões dos dois grupos que ocorrerão em Mendoza, na Argentina.

A avaliação no Brasil é que, mesmo sendo teoricamente possível separar o afastamento político do Paraguai da questão econômica, há uma tendência de "apertar mais" o novo governo paraguaio para deixar claro que haverá consequências pelo rompimento da cláusula democrática.

Há a preocupação de mostrar que as declarações do Mercosul não são apenas um "esperneio" sem resultados para que ações como o impeachment relâmpago de Lugo não sejam banalizadas.

Especialmente no Mercosul terá de ser analisado, por exemplo, como fica o acesso do Paraguai ao Focem, o fundo criado pelos quatro membros no qual o Brasil, o mais rico, contribui com 70% dos recursos e o Paraguai, o mais pobre, é o maior beneficiado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.