AP Photo/Alex Brandon
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Bravatas e recuos do presidente

Donald Trump tem uma rotina de ameaçar com consequências radicais e se retratar depois de reunião com líderes estrangeiros

Fareed Zakaria*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 05h30

Preste atenção. O que você ouviu na entrevista conjunta na quarta-feira dos presidentes da Comissão Europeia e dos Estados Unidos foi Donald Trump mais uma vez batendo em retirada. E isso já se tornou uma rotina familiar.

Ele começa gritando insultos contra o outro, alguns com base na realidade, mas no geral extremamente exagerados. Faz ameaças de consequências radicais. Depois, se reúne com a outra parte, volta atrás e triunfantemente anuncia que salvou o mundo de uma crise que sua retórica e ações causaram no início.

Pense nas suas ações no caso da Coreia do Norte. Ele começou chamando Kim Jong-un de “maluco que não se importa em matar de fome ou aniquilar seu povo”, e o ameaçou com “fogo e fúria” e outras frases que o mundo nunca ouviu antes. Ele solucionou sua própria crise fazendo concessões unilaterais para Kim e falou entusiasmado como a população norte-coreana “ama” seu ditador absoluto e como ele, Trump, confiava nele.

Agiu da mesma maneira com a União Europeia (UE), que recentemente havia descrito como “o pior dos nossos inimigos”. Agora, após a reunião com Jean-Claude Juncker, Trump afirmou que UE e EUA realmente “se adoram”. Espere para ver o mesmo recuo no caso da China qualquer dia desses.

No caso de Trump isso não prejudica sua estratégia porque suas palavras não têm peso. Ele começa com o que descreveu em A Arte do Acordo, com uma “hipérbole precisa” e depois, ao ser confrontado, adapta o que disse para alguma coisa mais próxima da realidade.

Há quem afirme que o comportamento aparentemente bizarro e imprevisível de Trump faz parte de uma estratégia astuta e prudente, que ele joga uma espécie de xadrez quadridimensional, operando no espaço-tempo. Bem, se for esse o caso, ele está levando uma surra. Em nenhuma dessas situações realmente conseguiu extrair alguma concessão. Sua tática usual é anunciar algo vago, como ocorreu com a Coreia do Norte e as conversações com a Europa, ou então algo que já existe, e declarar isso como uma vitória.

Mas essas bravatas e mudanças de atitude implicam um custo. Trump está criando para os EUA uma reputação de país errático, imprevisível, não confiável e fundamentalmente hostil à ordem global. Os líderes europeus já deixaram isso claro.

George Osborne disse-me que, quando foi ministro das Finanças da Grã-Bretanha “o presidente dos EUA estava sempre pronto para proteger ou defender seu país”. “A Grã-Bretanha, e qualquer outro país, não estão mais seguros disso.”

Segundo o economista Adam Posen, os países agora vêm ignorando os EUA e construindo uma “economia mundial pós-americana”. Podemos observar isso na enxurrada de acordos que não incluem os EUA, desde a Parceria Transpacífico, assinada sem os americanos, ao acordo comercial que a UE acabou de firmar com o Japão. E muitos outros estão sendo esboçados.

O sinal mais dramático desse distanciamento do mundo com relação aos EUA é o declínio do investimento estrangeiro. “Ele vem despencando”, disse-me Posen. O investimento externo nos EUA caiu em média à metade desde 2016. “O declínio é ainda mais preocupante porque há muitos fatores que deveriam estar fomentando o investimento direto no país este ano”, escreveu ele na revista Foreign Affairs.

O maciço estímulo fiscal aprovado pelo Congresso deveria ter aumentado o investimento externo de três maneiras: impulsionando os gastos, o que aumenta as perspectivas de crescimento dos EUA; tornando o código fiscal mais favorável à produção interna; e cortando a alíquota fiscal das empresas.

Talvez parte desse declínio seja uma tendência de prazo mais longo - outros países vêm crescendo mais rápido do que os EUA. Mas há décadas essa realidade é contrariada por outra verdade - a de que entre as nações mais ricas do mundo, os EUA eram os únicos a ter boas perspectivas de crescimento combinadas com políticas estáveis e previsíveis favoráveis ao mercado.

Os ataques de Trump contra o comércio e os aliados, o desejo de punir e recompensar companhias individuais e a sua falta de fiabilidade dão uma imagem de uma política similar ao de um país em desenvolvimento desconexo governado por um ditador. A diferença é que o ditador dos EUA tem o poder de convulsionar toda a economia global. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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