Breivik, a face do horror

Anders Behring Breivik terá seu processo examinado e será confrontado, oprimido, desprezado e, finalmente, punido. Não só em seu julgamento, mas por toda a vida. Por toda a eternidade, ele será visto pelas pessoas como a representação do mal.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2012 | 03h04

Breivik chegou na segunda-feira ao tribunal usando um terno preto, uma camisa branca e uma gravata ocre. Bem cuidado. Bem penteado. Em ordem. Quando as algemas lhe foram retiradas, ele bateu no coração com as mãos antes de estender o punho fechado para o público composto de famílias das vítimas e dos sobreviventes, gesto explicado assim no seu manifesto: "a força, a honra e o desafio aos tiranos marxistas na Europa".

O relato dos seus crimes o deixou indiferente. Mas, quando o tribunal projetou o curto filme que ele divulgou no seu website no dia do ataque para explicar seu gesto, Breivik não conseguiu conter as lágrimas. No rosto intumescido que se tornou vermelho, imundo, vimos lágrimas.

Um dos seus advogados comentou: "É interessante vê-lo chorar. Está desolado. Ele ama tanto seu filme de menino!" É um louco? É normal e, portanto, responsável? Essa é a grande questão apresentada ao tribunal. Breivik foi examinado por psiquiatras. Um primeiro exame constatou que ele é esquizofrênico. Outro indicou que ele é normal e responsável. Ele próprio, que assumiu os atos, se diz normal.

Para os investigadores na prisão ele se apresentava como um mártir. Seus amigos o descreveram como uma pessoa "estranha". Alguém obcecado por sua aparência física, sua roupa, seu penteado. Ele não desejava uma vida ordinária. Deixou o ensino médio no segundo ano sem terminar os estudos. Queria ganhar muito dinheiro, mas fracassou em tudo. Cortou relações com o pai, um diplomata norueguês aposentado que vive na França.

Em 2006, voltou a viver na casa de sua mãe e as coisas, no início, correram bem. No entanto, ele se isolou cada vez mais no seu computador. Só falava de política. A mãe o achava "bizarro, irritadiço, violento". Ele começou a comprar armas e a treinar no estilo Rambo. Em 2011, comprou uma fazenda. A mãe ficou aliviada.

Para seus advogados, ele falou de um bando de "jovens paquistaneses" que aterrorizava seu bairro. Proferiu blasfêmias contra todos os professores noruegueses que tentaram doutriná-lo com suas teorias marxistas e multiculturais. Em 1997, ingressou numa agremiação populista de extrema direita, o Partido do Progresso.

Breivik pretendia tornar-se presidente da república, para expulsar islâmicos para longe da Europa, mas o partido não o seguiu. "São uns frouxos!" Ele saiu do partido. E, de novo, lá estava ele na internet, vasculhando para descobrir fóruns extremistas.

Segundo disse a seus advogados, encontrou um ex-comandante sérvio que vive na Libéria e convidou-o para ir a Londres para participar de um encontro com 12 pessoas de 12 países diferentes. E criaram a Ordem dos Cavaleiros Templários da Europa, cujo primeiro objetivo era pôr fim à islamização da Europa. Verdade? Esses cavaleiros existem? Os juízes duvidam.

Para Tore Bjorgo, norueguês estudioso da extrema direita no país, o fato de ele crer estar numa guerra civil não tem nada de paranoico. É uma ideia partilhada por muitos outros. Para os psiquiatras, ele explicou que "quis matar o maior número de pessoas possível, para ficar certo que o seu manifesto fosse lido e mencionado na imprensa mundial". E estava contente porque "conseguiu o que queria". Para os pais da vítimas, os sobreviventes, ele só inspira o horror. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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